O encontro foi em 2005, durante a Copa das Confederações, na Alemanha. Eu estava lá para cobrir o torneio e Bebeto, como empresário, para negociar Athirson, que o acompanhava. Nos vimos na loja do Bayern Leverkusen (clube para onde o lateral estava se transferindo) e foi no papo que se seguiu que, pela primeira vez, ouvi falar de seu filho Matheus como promessa de grande craque.
Era chamado carinhosamente de Matheusinho e o pai não lhe poupava elogios:
— É um meia clássico, à moda antiga, Renatinho. Faz o que quer com a bola e, pode apostar, vai vestir a dez do Mengão e dar muitas alegrias à torcida — me disse ele, com a aprovação de Athirson, que também se dizia entusiasmado com o talento do garoto, então com apenas 11 anos e já em atividade na escolinha do Flamengo.
De lá pra cá, passei a acompanhar, ainda que à distância, a carreira do menino. Seleção de base em todas categorias, certa vez foi cortado de um campeonato sub-17, o que provocou a minha segunda conversa com Bebeto, sobre ele. Pai zeloso, o parceiro de Romário em 94 me ligou para se lamentar:
— É uma tremenda injustiça, Renatinho. Os técnicos de hoje em dia preferem levar mais um cabeça de área do que um armador clássico. Por isso os camisas 10 de antigamente estão desaparecendo. Dão preferência a quem marca, não a quem cria. Matheusinho joga muito. Você precisa ver.
Passou o tempo e, finalmente, o vi em ação. Foi numa Copa São Paulo de juniores. Talento, evidentemente, ele tinha. Mas seu estilo mais cadenciado já desagradava a alguns treinadores.
— Quem vai ser o cracaço dessa nova geração rubro-negra é o Adryan. Joga uma barbaridade. Se tiver cabeça, vai longe (observação obrigatória: infelizmente, parece que não tem). Matheus também é talentoso. Mas não sei se é jogador pro Flamengo. É um meia mais lento e a torcida de lá às vezes se irrita com jogadores assim — disse-me, certa vez, Ney Franco, então responsável pelas divisões de base da seleção e já tendo trabalhado com os dois.
Deixemos a interessante observação do treinador pra depois (ela é importante para entender todo o contexto) e lembremos do primeiro problema dos torcedores do Fla com Matheus. Aconteceu, na verdade, quando surgiu a possibilidade de transferência para a Juventus e tanto ele como Bebeto se mostraram quase que irredutíveis na decisão de deixar o clube, por uma proposta que nem era lá grande coisa (e acabou não se concretizando).
Aí nasceu a mágoa: como um menino criado a pires de leite, na Gávea, filho de um ex-campeão pelo clube (e que também o trocou, pelo Vasco…), iria embora tão cedo? Não era uma grande promessa de craque? Então que jogasse ao menos por alguns anos pelo time principal antes de sair.
Para aumentar a revolta da torcida, a diretoria da época lavou as mãos. Garantiu que nada podia fazer, diante da firme disposição do jogador e do pai. O negócio, porém, melou e Matheus renovou.
Voltou, então, a ser utilizado, mas em poucas ocasiões, quase sempre entrando no final dos jogos e sem conseguir brilhar. Estava meio esquecido até a noite de quarta-feira passada, no Mineirão. E aí o que era ressentimento transformou-se em raiva.
Matheus, obviamente, não foi culpado de nada. Quem errou (e, ontem, assumiu isso em entrevista coletiva) foi Vanderlei Luxemburgo. Não era momento pra lançar no fogo um jovem que ainda busca se firmar no clube e estava completamente sem ritmo de jogo. E mais: numa partida frenética como aquela, o que esperar de um jogador que entra frio e tem o estilo cadenciado, como o dele?
É preciso que os torcedores tenham paciência com Matheus — a história do clube está cheia de exemplos de jovens talentosos que acabaram indo brilhar em outros clubes. Mas urge também que ele entenda como é a torcida do Mais Querido. Zico, o maior de todos os craques do Flamengo, um magnífico artista da bola, dava carrinhos, corria alucinadamente os 90 minutos e costumava dizer:
— Quando a fase é ruim, o jeito é suar mais.
Matheus precisa seguir esse sábio conselho do Galo. E responder, em campo, às críticas de que não tem sangue, que é um garoto mimado que não precisa do futebol e joga por hobby. Se isso acontecer, aposto, o seu bom futebol aparecerá. E toda essa ira de hoje se transformará em amor.
Intolerância
Filhos de craques sofrem, sim, preconceito dos companheiros que veem a bola como um prato de comida. Descendentes de ricos, costuma-se dizer, nascem sem caninos. Matheus precisa mostrar que os têm e bem afiados. E que sabe usá-los.
Fonte: Blog do Renato Maurício Prado

