Quarta-feira passada, 29 de outubro, ao ouvir que era o Dia Nacional do Livro, lembrei de uma frase de Nelson Rodrigues (1912-1980): “O escritor brasileiro não sabe cobrar um escanteio”. O cronista e dramaturgo pernambucano e imortal torcedor do Fluminense lamentava o descaso dos literatos com o futebol. Descaso este que teve admiráveis exceções a começar pelo goleiro do mesmo Fluminense na primeira escalação da Seleção Brasileira, em 1914. Antes de ser um respeitado historiador, Marcos Carneiro de Mendonça (1894-1988) foi campeão sul-americano em 1919 e 1922, títulos que o Brasil conquistou no estádio das Laranjeiras, onde nasceu o torcedor brasileiro. Ou melhor, nasceram as torcedoras.
Coelho Neto (1864-1934), romancista maranhense, relatou, em uma crônica, que as mulheres ficavam tão aflitas durante os jogos nas Laranjeiras que torciam os lenços. Por isto, as chamou de “torcedoras”. Daí, para torcedor por um salto.
Salto, aliás, quem deu no mesmo campo das Laranjeiras foi Preguinho, um dos maiores fenômenos do esporte brasileiro. Preguinho praticou dez modalidades pelo Fluminense (basquete, natação, atletismo, tênis de mesa, entre tantas), fez o primeiro gol da Seleção Brasileira na história das Copas do Mundo (em 1930, na derrota para a Iugoslávia, por 2 a 1, no Uruguai) e entra nesta história por ser filho de Coelho Neto, que não satisfeito em “inventar” o torcedor descobriu também a arte de peitar o juiz. Nem o fato de ser presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1926, inibia o escritor de invadir o campo para (dizem) usar a bengala contra os árbitros, principalmente quando o filho estava em campo. E o craque Preguinho nem precisava da proteção do pai ilustre.
A relação intelectualidade-futebol não é privilégio do Fluminense. Outra torcida tricolor, a do Santa Cruz, orgulha-se de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) não apenas pelos versos de Morte e Vida Severina. João Cabral foi juvenil do América de Recife. Mas a mãe dele, torcedora do Santa Cruz, até hoje o mais popular time pernambucano, foi convencida a fazer o menino trocar de camisa. Sorte Santa! Com o futuro poeta no meio-campo, o tricolor da cobra-coral foi campeão juvenil em 1935. Depois, João largou a bola, se entregou as letras e manteve a velha paixão… pelo América!
Outro nordestino, o paraibano José Lins do Rego (1901-1957), não jogou bola, mas tornou-se um inflamado dirigente do Flamengo. Certa vez, indignado com um jogador que não havia suado no jogo, Zé Lins do arrancou a camisa do cidadão e a queimou dentro do vestiário. Em outra ocasião, hospitalizado, o autor do clássico romance Menino de Engenho só aceitou três tipos de visita: a dos parentes, a dos amigos e a dos torcedores do Flamengo.
Não há um romance do tipo obrigatório que tenha o futebol como pano de fundo, mas a Academia Brasileira de Letras já viu entrar pela porta da frente um ex-candidato à ponta-esquerda do América do Rio de Janeiro. Em 1988, quase meio século depois de ser juvenil do alvirrubro e há muito dedicado a livros infantis e de orientação educacional, Arnaldo Niskier (1935-) foi eleito presidente da ABL.
Outra Academia de Letras, a Paranaense, também celebrou um torcedor. O historiador Túlio Vargas (1929-2008) presidiu a APL, onde manteve o dom da oratória que cativou os ouvintes das rádios Marumby (“a emissora nativa da terra dos Pinheirais”) e Clube Paranaense nos 1940 e 1950. Tulio foi um dos primeiros narradores do futebol paranaense.
Por fim, volto ao começo deste texto: Nelson Rodrigues, o primeiro cidadão a chamar Pelé de Rei. Foi após uma vitória do Santos sobre o América no Maracanã, por 5 a 3, em fevereiro de 1958, quatro meses antes de Pelé deslumbrar o planeta no mundial da Suécia. Nelson enxergava mal (era míope) e enxergava como poucos, mesmo sendo incapaz de cobrar um escanteio.
Fonte: Boleiros e Barangas

