Eurico quer igualar orçamento do Vasco ao do Flamengo.

O orçamento para 2015 aprovado na semana passada pelo Conselho Deliberativo do Vasco – que prevê receita de R$ 251 milhões e superávit de R$ 73 milhões – tem metas que ultrapassam em quase R$ 100 milhões o último resultado financeiro apresentado em 2013. Há dois anos, o balanço patrimonial apontava R$ 159 milhões em arrecadação. Agora, na proposta orçamentária “um pouco otimista” – expressão usada pelo vice de finanças do Vasco, Marcos Pereira de Carvalho -, o presidente Eurico Miranda coloca para cima o orçamento para não ficar abaixo da previsão do rival Flamengo. O rival prevê mais de R$ 350 milhões de receitas este ano. As cifras provocaram os primeiros embates entre a situação e a oposição – representantes da minoria se abstiveram de votar e consideraram que Eurico desprezou ferramenta importante de projeção da saúde financeira para a temporada.
Se atingir as metas previstas no orçamento – só com vendas de direitos econômicos de jogadores seriam R$ 39,4 milhões, mais R$ 4 milhões de empréstimos de atletas -, o Vasco atingiria mais de 70% dos valores arrecadados nas negociações de dois anos rentáveis de transações. Em 2012 e 2013 – quando desmontou a equipe e vendeu Dedé, Diego Souza, Rômulo, Alan, Fagner, Douglas, Danilo, entre outros – o clube arrecadou quase R$ 60 milhões em direitos econômicos.
A estratégia de duelar e se comparar ao Flamengo, o que é retórica antiga de Eurico, tem como deve servir para se sentar nas mesas de negociações com entidades, patrocinadores e investidores daqui para frente. É o que defendem aliados do presidente. Para Eurico, depende também de “quem está por trás para fazer isso”.
– Na reunião comentei o seguinte: a nossa obrigação é buscar equiparar e até superar o Flamengo. Depende de quem está por trás para fazer isso. Já dei o ponto de partida que era conseguir as certidões. Elas abrem muitas possibilidades para o Vasco, e é com essas possibilidades que a gente vai conseguir as coisas – disse Eurico.
INVESTIMENTO DE R$ 25 MI EM ATLETAS
Em patrocínios, o Vasco também sonha alto para 2015. Segundo o orçamento deste ano, a previsão é de atingir R$ 45,9 milhões. A renovação com a Caixa pode atingir mais R$ 20 milhões – no primeiro ano de contrato a cota era de R$ 15 milhões. A estimativa para um novo contrato para as mangas pode render mais R$ 7 milhões. Com as costas e a barra da camisa ainda limpas, o clube precisaria faturar quase R$ 20 milhões a mais para atingir a meta.
– A gente tem que botar a imaginação para funcionar. O trabalho que temos é de tentar atingir isso. O objetivo é esse, de chegar e as coisas irem para outro patamar – comentou Eurico.
Para o torcedor do Vasco que acompanha as primeiras 12 contratações do ano – em sua maioria jogadores desconhecidos e, por esse motivo, também mais baratos – fica difícil imaginar que o clube planeja “investimentos fixos com atletas profissionais” de R$ 25 milhões, conforme descrição de parte da aplicação do superávit previsto de R$ 73 milhões. Outra parte desse superavitário Vasco de 2015 será destinada para quitação de parcelamentos fiscais da ordem de R$ 30 milhões. Dívidas com credores e fornecedores representam mais R$ 13 milhões em despesas.   
Outros números que chamam a atenção são os cuidados prometidos na conservação patrimonial do clube. Para a recuperação do parque aquático o investimento pode chegar a R$ 1,3 milhão, na sede do Calabouço, R$ 1,2 milhão, no Colégio Vasco da Gama e no alojamento do futebol amador a soma dos dois dá mais de R$ 2 milhões. Aliás, o estádio pode ser fonte de renda também do clube, que planeja receber R$ 4 milhões com o aluguel de São Januário em 2015.
O conselheiro da oposição Carlos Leão, membro da Cruzada Vascaína, contesta as informações da previsão do orçamento do clube e lamenta que eles não tenham tido tempo para analisar, sugerir e questionar os números apresentados. Na abertura da reunião, o presidente do Conselho Deliberativo, Luis Manoel Fernandes, justificou a apresentação do orçamento apenas no dia da votação para todos os conselheiros porque não houve tempo hábil para o envio dos números cinco dias antes do encontro na sede da Lagoa, como pede o estatuto vascaíno.
– Onde o Vasco vai arrumar vendas de R$ 40 milhões com esse time que está aí? Previu-se um superávit de R$ 73 milhões, com R$ 43 milhões para pagar dívidas. Se a dívida do clube hoje é de R$ 500 milhões, ele vai pagar tudo (a dívida) em 12 anos. O que seria um número fabuloso, mas a gente sabe que isso não é verdade – afirmou Leão.
Segundo colocado na eleição, o grupo “Sempre Vasco” tem 12 integrantes da Cruzada e mais membros de outras correntes que se uniram para apoiar Julio Brant – que não esteve na reunião, pois passa férias fora do país. Na reunião na sede da Lagoa Rodrigo de Freitas, Leão e outros conselheiros pediram revisão trimestral do orçamento. Um novo encontro do Conselho para verificar a execução do orçamento acabou sendo aprovado para daqui a seis meses.
– Quando falamos dessa reunião de seis meses, Eurico disse: “Não precisa nem fazer porque vamos estar de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões pior no déficit do ano” – relatou Leão.
OUSADIA CONTRA FALTA DE INFORMAÇÕES
O conselheiro da Cruzada Vascaína disse que logo que recebeu o orçamento na reunião de semana passada na Lagoa questionou o vice-presidente de finanças – “de onde o Vasco vai tirar R$ 100 milhões a mais de receita?” -, que reconheceu nas projeções números “para cima”. Em entrevista ao GloboEsporte.com na última semana, Marcos Pereira de Carvalho comentava que 2015 era um ano “para se tatear passo a passo” as possibilidades de crescimento de receita, em meio às tentativas de enxugamento de gastos. No mesmo orçamento, há ainda previsão de indenizações de R$ 2 milhões, o que sugere a redução do quadro de funcionários do clube.
– Com as CNDs (Certidões Negativas de Débitos), as portas se abriram. Aumentam bastante as chances de se conseguir patrocínios. Agora, quanto e quando vai entrar, temos que acompanhar mês a mês o que vai acontecer. Espero que no fim deste ano tenhamos algo muito mais consistente para apresentar. Muito mais realista – disse o vice de finanças.
A retirada das certidões trouxe uma “nova era” para o Vasco, segundo o anúncio do site oficial do clube. Com as leis municipais, estaduais e federais de incentivo ao esporte, o clube sonha obter patrocínio de R$ 2 milhões para o basquete e futsal – metade para cada esporte -, mais R$ 700 mil no remo, R$ 200 mil para o atletismo, entre outras expectativas positivas.
Poder fiscalizador da administração financeira e da execução anual do orçamento do clube, o Conselho Fiscal – com o voto do presidente e do membro da situação do órgão – recomendou a aprovação da projeção financeira. O representante da oposição Diego Henrique Carvalho, que não compareceu à reunião da última semana, não quis assinar o termo sem analisar com mais calma o documento. Otto Alves de Carvalho Junior, presidente do Conselho Fiscal, lembrou a falta de base para o cálculo das previsões para este ano, pois as contas de 2013 não foram aprovadas e as de 2014 ainda nem têm auditoria externa.
– Eurico fez questão de cumprir uma norma estatutária. Vai se correr atrás de tudo, com as certidões, para conseguir as receitas. Talvez o Eurico tenha levado um orçamento desse tamanho para mostrar uma ousadia do tamanho do Vasco – afirmou Otto, que interpretou o salto para mais de R$ 250 milhões de receitas como vontade de o clube se superar.

Fonte: GE

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