O Dia – Ex-ponta-direita de Fluminense e Flamengo nos anos 1970, e hoje jornalista, Zé Roberto Ladeira reverencia nesta carta a carreira do lateral Leonardo Moura, que se despede nesta quarta-feira da torcida rubro-negra. Confira.
Adeus,
Por José Roberto Padilha
Li outro dia que o auge do homem ocorre quando ele reúne todos os seus experimentos, acresce o equilíbrio das relações e atuações físicas e intelectuais e bate no liquidificador da capacidade o néctar da plenitude. Este será servido à sociedade que o respeita e merece. Na minha função social, ala ou lateral-direito em defesa de uma Nação, significa, após 518 partidas, realizar a cobertura do meu zagueiro central (caso ela, bola, ultrapasse a pequena área, quem a receber terá um ângulo menor para sua conclusão), cadenciar as subidas ao ataque (ir somente na boa, ser um fator surpresa, não uma mesmice prevista a ser marcada) e realizar um passe na cabeça do centroavante, após chegar à linha de fundo (não mais cruzar sobre a área, a esmo, mesmo porque se a zaga adversária interceptar o cruzamento tenho que recompor a minha, em velocidade). De posse da braçadeira, respeitar o juiz, os adversários, quem pagou o ingresso lá em cima. Só agora, aos 36 anos me sinto pronto, sabido, ter reunido todas as qualidades para ser um dos maiores laterais do Brasil.
Mas quando atingi o auge me preparei para ser reconhecido e convocado para a seleção brasileira, nossa cultura esportiva, por unanimidade, sem que uma só voz protestasse, das cabines de imprensa, colunas de jornais ou arquibancadas, entendeu que me encontro ultrapassado para a profissão. Meus dirigentes me ofereceram não um aumento, mas um salário-previdência que só vale até o término do Estadual. E vão, nesta quarta, realizar meu jogo de despedida.
Há dois anos, o Estadual carioca tinha no seu meio-campo Seedorf, Deco, Juninho Pernambucano, Renato Abreu e Felipe. Era arte pura que enchia de talento nossos clássicos, dando razão àqueles que o reputam o mais charmoso campeonato de futebol do mundo. Aí, um complô os aposentou por unanimidade. Ano passado, ocuparam aquela faixa seus substitutos, Gegê, Guinazu, Pedro Ken, Márcio Araújo e até o filho do Abel andou se exibindo por ali. Sumiram os espectadores, caiu a arrecadação, ninguém chegou à Libertadores e o Botafogo ainda caiu para a Segunda Divisão. Será que ainda não sabem o porquê?
Estou indo, no auge de minha forma, para os Estados Unidos. Por lá, há uma vocação em perpetuar o belo, não o aspirante a belo. Broadway, Carnegie Hall, o United Center, todos os palcos estendem seu tapete vermelho para o talento, não para a idade. Se o Prêmio Nobel é entregue às maiores sumidades do mundo e a média de seus ganhadores é de 67 anos, por que será que insistem em aposentar a arte que pratico, quando mais dela domino, aos 36 anos? Por que não o fazem como a Itália, que respeita Pirlo, Totti, Buffon, Del Piero e soube aplaudir de pé as últimas pinceladas de arte de Roberto Baggio?
Ainda bem que, ao contrário de muitos companheiros, ainda há quem lá fora me acolha e respeite. Muitos deles são atirados ao mercado de trabalho que nenhum legislador ou cartola os preparou para enfrentar. E por lá precisam sobreviver sem um só ano de periculosidade a descontar, mesmo com a chuteira passando rente ao nosso fêmur, as cabeçadas por um triz diante dos nossos miolos. Mas existem lesões que nunca são cicatrizadas. Esta pancada de ostracismo, de ingratidão e falta de reconhecimento que acabo de receber, não há gelo ou Gelol que cure. Só o tempo. Adeus.
