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Há 35 anos, o Botafogo-PB calava o o Flamengo de Zico.

Coluna do Flamengo
Coluna do Flamengo
Publicação: 06/03/2015
1 comentário
Atualização: 06/03/2015
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Globo Esporte – Quando o dia 6 de março de 1980 ia chegando ao fim no Rio de Janeiro, os jogadores que vestiam a camisa do Botafogo da Paraíba naquela época sabiam que estavam entrando definitivamente para a história do clube. Mais que isso, para a história do futebol paraibano. E são eles mesmos, os protagonistas daquele feito, que lembram disso 35 anos depois. Aquele time  – um esquadrão em preto e branco – acabara de realizar uma façanha. Contra todos os prognósticos, vencera o Flamengo em pleno Maracanã. Mas não um Flamengo qualquer. Era o Flamengo de Zico, Júnior, Adílio, Andrade, Carpegiani. Um time que conquistaria o Brasil naquela mesma temporada e que apenas um ano depois seria campeão do mundo. Hoje, é inegável: o Botafogo-PB fez história naquela noite carioca, no maior palco do futebol mundial. A vitória por 2 a 1 confirmava o quanto o futebol é imponderável. Mostrava a força do futebol nordestino. Colocava para sempre aquele time da estrela vermelha nos anais do futebol paraibano.

O Botafogo-PB conquistou, ao longo da sua trajetória, 27 títulos estaduais – o que o coloca na condição de maior vencedor da Paraíba. E há dois anos tornou-se o primeiro clube paraibano a levantar a taça de uma competição nacional, ao ser campeão da Série D do Campeonato Brasileiro. Ainda assim, a vitória no Maracanã está até hoje no rol das grandes glórias do clube e se equipara a suas maiores conquistas. A ponto de jamais ter sido esquecida pelos seus torcedores. Mesmo os mais novos, que não viveram aqueles tempos, falam com orgulho do dia em que o Belo venceu o Fla.

Para se ter uma ideia, os jogadores daquele time ainda hoje são tratados como ídolos pela torcida botafoguense. As décadas se passaram, mas Nicácio, Zé Eduardo, Soares, Magno, Getúlio – jogadores de destaque daquela formação comandada pelo técnico Caiçara – ainda são festejados como escritores de um dos principais capítulos da história do clube de João Pessoa.

E os 2 a 1 fizeram estragos. A ponto de Zico – eterno ídolo do Flamengo e um dos maiores jogadores do futebol mundial – admitir mais de três décadas depois que a derrota para o Botafogo-PB foi o único resultado que ficou lhe “atravessado” na campanha vitoriosa do Rubro-Negro em 1980. E de Tita – habilidoso ponta do Fla – se render à qualidade do Belo e elogiar um a um os jogadores alvinegros.

PONTO ALTO DA BELA CAMPANHA NA TAÇA BRASIL

Superar a força do Flamengo no Maracanã não foi a única demonstração da grandeza daquele Botafogo-PB. Considerada uma das zebras na Taça Brasil de 1980 – que equivalia à Série A do Campeonato Brasileiro -, o Belo também bateu o Internacional e empatou com o Cruzeiro. Ganhou o apelido de Matador de Tricampeões, já que o Fla e o Colorado vinham de três títulos seguidos em seus estados. Foi, portanto, um ano sublime para o clube paraibano. Inesquecível.

O Alvinegro da Estrela Vermelha encarou na primeira fase um grupo que ainda tinha Santos, Ponte Preta, Náutico, Ferroviário, Itabaiana, Mixto e São Paulo-RS, além de Flamengo e Inter. E se classificou. Foi terceiro colocado da chave, com 11 pontos (naquela época, a vitória valia dois pontos). Conseguiu cinco vitórias e um empate, perdendo apenas três partidas. Só foi superado por Santos e Flamengo, nessa ordem.

A partida contra o time de Zico e companhia foi a terceira do Belo naquele Brasileiro. O Alvinegro vinha de uma excelente vitória, contra o Náutico, também fora de casa, no Estádio dos Aflitos. O Flamengo, por sua vez, estava montando o maior time da sua história e já tinha vários jogadores que conquistariam o Mundial no Japão no ano seguinte. Era grande, portanto. Um gigante. E não se esperava que um time da Paraíba – dono de um futebol sabidamente menos desenvolvido – pudesse lhe fazer frente. Mas aquele também não era um Botafogo-PB qualquer.

O time paraibano naquele jogo tinha Hélio Uchôa no gol, Geraílton e Deca na zaga, Marquinhos e Nonato Aires nas laterais. Do meio para a frente, um espetáculo: Nicácio era um falso volante, mas que sabia sair jogando com maestria. À sua frente, o habilidoso meia Zé Eduardo. E na linha ofensiva, um quarteto de respeito: Evilásio, Magno, Soares e Getúlio. Era uma força.

– O Botafogo era um grande time, muito bem armado, com um meio de campo muito bom e um ataque também muito bom – resumiu Marquinhos, lateral do Alvinegro.

Mas a missão do Belo não era fácil. Definitivamente. Raul defendia o gol rubro-negro, protegido também pelos zagueiros Rondinelli (o deus da raça) e Nélson. Nas laterais, jogavam Júnior (que viria a se tornar o maestro) e Carlos Alberto. O meio de campo era um dos melhores que o clube já formou: Andrade no centro, Adílio e Tita de um lado, Zico e Carpegiani do outro. Na frente, Reinaldo.

O INÍCIO DO JOGO ÉPICO

Era noite de quinta-feira. E 25.496 torcedores estavam a postos nas arquibancadas do Maracanã. Uma semana antes, o Flamengo havia vencido o Internacional naquele mesmo palco. E o clima era completamente favorável ao Rubro-Negro. Por jogar em casa. Por ter o apoio da torcida. Por ter um time tecnicamente melhor. E – por que não dizer? – porque do outro lado estava o Botafogo-PB. Os próprios jogadores alvinegros reconhecem que o adversário era melhor, mas garantem que, apesar disso, havia confiança.

– Para ser sincero, você enfrentar um time com Zico e companhia dentro do Maracanã… Não existia essa ideia da vitória, mas também não existia a ideia de derrota – revelou Nicácio, lembrando do ambiente interno no Belo.

O Flamengo foi a campo com um meio de campo recheado de craques, que se revezavam em suas posições e avançavam com velocidade e precisão de passes para municiar o atacante Reinaldo, isolado lá na frente. De seu lado, o Botafogo-PB surpreendeu já na escalação do técnico Caiçara. Com apenas um volante, Nicácio – mas que sabia sair para o jogo -, o Belo tinha quatro homens ofensivos. Dava a entender que jogaria sem medo, portanto. E assim foi. E é de Nicácio a reprodução de uma constatação do técnico alvinegro.

– Credito aquela vitória ao treinador Caiçara, que não inventou. Ele dizia antes do jogo: “Perder para o Flamengo, tomar uma goleada, é uma coisa normal. Agora o empate será uma vitória”. Mas vencemos graças ao nosso empenho e à ideia que ele comprou: “Por que é que eu vou mudar a maneira de o meu time jogar? Só porque vou enfrentar o Flamengo?”. E jogamos naturalmente – resume o volante.

O técnico Cláudio Coutinho, do Fla, como quem previa que algo podia fugir ao roteiro da noite, pedia que o seu time estivesse atento a cada minuto do jogo. Os craques rubro-negros tocavam a bola. Exibiam sua técnica. Não abdicavam de ir à frente, tentar o gol. No entanto, encontravam um Botafogo-PB aplicado na marcação. E que também sabia tocar a bola.

O fato de não conseguirem, de início, balançar as redes adversárias, não parecia fazer os flamenguistas acharem que tinham um problema. Antes, a impressão que se tinha era de que a vitória poderia vir a qualquer momento. Naturalmente. A realidade, contudo, se mostrou diferente. E terminado o primeiro tempo sem que as redes tivessem sido balançadas, havia uma certeza entre os presentes ao Maraca: ali estavam dois times se enfrentando de igual para igual. E havia muito a acontecer nos últimos 45 minutos.

– Quando terminou o primeiro tempo, Caiçara disse: “Se a gente repetir esse primeiro tempo, temos condições de sair daqui com a vitória” – acrescentou Nicácio sobre a convicção do técnico alvinegro.

O PRIMEIRO GOL

Na volta do intervalo, o Botafogo-PB só precisou de quatro minutos para começar a desenhar uma das mais inesquecíveis vitórias da sua história e uma da maiores zebras daquele Brasileiro. E usando uma jogada que o meia Magno define como sendo a principal arma do time: o contra-ataque veloz.

– Usamos o contra-ataque com o ponta-direita Getúlio, já que nós sabíamos que Júnior apoiava muito o ataque. Nós armamos esse esquema e as bolas que nós defendíamos, tocávamos no meio de campo para Magno ou para Zé Eduardo, e Zé Eduardo, com a categoria que tinha, lançava para Getúlio nas costas de Júnior – detalhou Magno.

E foi assim. Mas com peças trocadas. Nicácio desarmou Zico e lançou para Evilásio na direita, que tocou para Soares. De primeira, o atacante mandou para as redes. No canto esquerdo de Raul, que ficou sem ação. Era o primeiro gol do jogo. A primeira visita do imponderável à partida. Ainda assim, o ar de confiança entre os flamenguistas – em campo e nas arquibancadas – não parecia se abalar.

EMPATE E PRESSÃO

Depois de abrir o placar, o Botafogo-PB recuou. Não por adotar uma postura mais covarde em campo. Mas porque o Flamengo partiu para cima. Pressionou. Queria o gol. Buscava ordenar a lógica do futebol em campo. E o sufoco que o Rubro-Negro imprimiu surtiu efeito aos 19 minutos. Carlos Henrique, que entrara em lugar de Júnior, fez boa jogada individual pela esquerda, invadiu a área e cruzou na medida para Tita pegar de esquerda, também de primeira, e vencer o goleiro Hélio. Empate. E mais pressão. E essa é a lembrança que o ponta flamenguista faz questão de não deixar que se perca.

– Eu me lembro que esse gol do Flamengo fui eu que fiz. É isso que eu me lembro – declara aos risos Tita, agora debaixo de seus cabelos brancos.

Do lado do Botafogo-PB, as lembranças daquele momento da partida são mais tensas.

– Quando o Flamengo fez 1 a 1, a torcida do Flamengo achou que o time iria virar o jogo – relembra Magno, acrescentando que o Belo tentava a todo custo manter a calma dentro de campo.

A torcida do Fla inflamou nas arquibancadas. Empurrava o time à força de berros para cima do Botafogo-PB. A bola teria que entrar. Parecia não fazer sentido que o Rubro-Negro não vencesse. Mas o Belo não se deixava abater pelos gritos que inundavam o gramado. Parecia conhecer a sua missão de distorcer a lógica dos fatos. E trataria de dar cabo à sua missão.

A VITÓRIA

Sufocado que estava pelo Flamengo, principalmente depois de sofrer o gol de empate, restou ao Botafogo-PB tentar a perfeição em pelo menos um dos contra-ataques. Ser decisivo. Letal. E o time paraibano conseguiu isso aos 36 minutos. Foi quando, numa subida rápida à frente, Magno encontrou Zé Eduardo de frente para o gol de Raul, mas ainda fora da área. Com espaço, Zé Eduardo apenas ajeitou e, de perna direta, chutou forte, rasteiro, no canto direito de Raul.

Era a materialização da confiança dos botafoguenses. A consumação do improvável. Restava pouco até o fim da partida. O time alvinegro apenas mostrava para si mesmo – e para quem quisesse ver – que era forte o suficiente para surpreender. A equipe rubro-negra parecia atônita. Meio perdida. Mas conformada que, se antes de a bola rolar, havia um desequilíbrio entre os dois times, dentro das quatro linhas as forças se igualaram. Cada uma à sua maneira. O Flamengo forte, indo para cima, buscando o gol. O Botafogo-PB consciente de suas limitações, mas, mais ainda, sabedor da sua capacidade.

– Quando o Botafogo fez o segundo gol, que a gente começou a tocar a bola, eles (os jogadores do Fla) ficavam olhando um para o outro. E não existiu dentro do Flamengo uma cobrança de xingamento entre eles. Eles simplesmente foram aceitando a derrota. E depois de 42, 43 minutos, a gente começou a tocar a bola e colocou o Flamengo na roda por dois ou três minutos, valorizando a posse da bola… “Como perder para esse time?”; isso passava pela cabeça deles. Mas, quando abriram os olhos, não deu mais tempo porque o final do jogo já estava muito próximo – descreve Nicácio.

A FESTA QUE NÃO ACABOU…

Ao fim da partida, estava sacramentado ali um capítulo à parte na história do Botafogo-PB. As expressões de incredulidade nos rostos flamenguistas contrastavam com a felicidade botafoguense. E um paraibano em particular fazia festa no Maracanã. Narrador esportivo da Rádio Tabajara, Eudes Moacir Toscano esteve em uma das cabines de imprensa do estádio e teve a honra de contar a história daquele jogo aos paraibanos. Confesso torcedor do Flamengo, ele admite que naquela noite em especial torceu para o Belo e foi mais um a festejar o feito.

– Nunca fui torcedor do Botafogo. Sou Flamengo do Rio. Mas naquele dia eu fui narrador e torcedor do Botafogo porque era a minha terra que estava no Maracanã representado pelo Botafogo. Aquela vitória foi uma coisa que ficou marcada na minha vida – descreve o paraibano, que é radialista esportivo há 51 anos.

Mas houve paraibano que não foi dormir muito feliz naquela noite. Natural de João Pessoa, Júnior era um dos protagonistas do time do Flamengo. O lateral ficou em campo até o começo do segundo tempo, quando precisou ser substituído por conta de um corte no rosto. Hoje ele reconhece a grandeza da conquista botafoguense, fato que, segundo ele, se torna maior por ter sido uma vitória sobre aquele que viria a ser o campeão daquele ano.

– Essa vitória do Botafogo, contra o time que viria a ser campeão brasileiro, com certeza, entrou para os anais do futebol paraibano – resume o maestro.

Depois da proeza conquistada em terras cariocas, o Botafogo-PB foi recebido com festa em João Pessoa. Os jogadores ovacionados como heróis. A edição do jornal A União, da capital paraibana, no dia seguinte ao jogo, estampou em sua capa: “Botafogo vence o Maracanã”. E um dia depois, em um caderno especial, apresentou a comoção que foi a chegada da delegação alvinegra à cidade. Os torcedores congestionaram o trânsito e acompanharam o desfile em carro aberto daquele que ficou marcado com uma das maiores formações da história do Belo.

ZICO SE RENDE À CATEGORIA DO BELO

Do alto da sua humildade, o Botafogo-PB conseguiu ser maior que o Flamengo. Ao menos por 90 minutos. E no Maracanã. E isso lhe rendeu algo talvez impensado por qualquer botafoguense à época. O Belo foi reverenciado pelo rei dos flamenguistas. Indiscutivelmente o maior ídolo da história do Rubro-Negro, Zico não esquece aquele jogo. Nem a qualidade do adversário. Hoje ele mantém a mesma opinião da época: o Alvinegro foi melhor e mereceu vencer. Ele vai além. Para o Galinho, a derrota foi uma verdadeira lição, essencial para que o Flamengo chegasse ao título brasileiro meses depois.

– Futebol não se ganha com nome, com tradição e sim jogando bola. O Botafogo foi lá, jogou bem, tinha um time bom. Eles jogaram melhor, ganharam, mereceram, e nós botamos os pés no chão, ficamos “pianinho” e dali em diante voltamos a ser Flamengo e não perdemos para mais ninguém no Maracanã – comentou Zico, lembrando que a única derrota do Fla depois daquela foi no primeiro jogo da final, contra o Atlético-MG, no Mineirão.

Mesmo 35 anos depois, Zico consegue descrever em detalhes o que se passou no gramado do Maracanã naquela noite. O que prova que aquele não foi um jogo qualquer. Claro que os botafoguenses não esquecem o feito. E o lado rubro-negro também não. O jogo, o resultado e a atuação do Belo foram marcantes de tal forma, que o Galinho de Quintino sequer titubeia ao rememorar alguns dos principais nomes dos botafoguenses que derrubaram o Fla no Maraca.

– Jogava lá um dos grandes atacantes da Bahia, que foi Zé Eduardo; e eu joguei com ele no Flamengo. Se eu não me engano, o ponta-direita Getúlio também, que depois foi para o Flamengo – elogia Zico.

– Foi marcante para a conquista do Flamengo porque aquela derrota abriu os olhos da equipe. Dali em diante, a gente não perdeu mais e foi campeão brasileiro. Então foi muito importante aquela derrota dentro do Maracanã. Naquele Brasileiro, foi a única partida que eu perdi – emendou o Galinho, que, de fato, não entrou em campo no primeiro jogo da final, quando o Fla perdeu para o Atlético-MG também por 2 a 1.

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