Fonte: Olhar Crônico Esportivo
Nota Oficial da Confederação Brasileira de Futebol
A CBF presta sua solidariedade aos irmãos uruguaios pela morte de Alcides Edgardo Ghiggia, campeão mundial de 1950. Autor do gol do título do Uruguai na Copa do Mundo realizada no Brasil, Ghiggia se notabilizou pelo desempenho em campo e extremo respeito pela tristeza do povo brasileiro com a derrota em 50. Hoje, o futebol do mundo inteiro chora a sua partida. Descanse em paz.
Compartilho do pesar dos uruguaios por essa perda e, como diz a nota da CBF, destaco o respeito de Ghiggia por nossa dor.
Vamos, agora, à CBF.
Sim, a CBF mudou. Não em tudo, não como deveria, mas mudou. Uma mudança para melhor, felizmente. Já tinha pensado em fazer esse post há algum tempo, mas ao receber essa nota oficial sóbria e correta, na manhã de hoje, concluí que era o momento de escrever sobre a confederação.
Um claro sintoma das mudanças, para mim, está na minha caixa de entrada de e-mails: quase todo dia recebo material da entidade e a maioria tem relevância. Valem a leitura, informam sobre medidas que alguma importância tem, desde fiscalização de estádios até mudanças na Seleção (bom, essa é a parte triste, antiga, ultrapassada…).
Antes recebia alguns comunicados, mas com muito menor frequência. Pior: abria, por dever de ofício, e já mandava para a lixeira. Boa parte era irrelevante e tanto nos muitos irrevelantes como nos poucos relevantes, lá estava a fotografia do presidente da entidade. Em tudo ele estava presente, sua imagem dominando a cena. Cheguei a medir: recebi e-mail em que sua foto ocupava 60% da área e o texto ficava com o restinho do espaço, menos de 30%, descontando a abertura padrão. Os e-mails pareciam meros folhetos de propaganda do presidente, o mesmo que hoje está preso na Suíça, aguardando extradição e julgamento por acusações diversas ligadas, prioritariamente, à FIFA.
O culto à personalidade era tão exagerado que cansava à simples ideia de abrir mais uma correspondência vinda daquele endereço e, invariavelmente, ao pensar nisso lembrava regimes totalitários, onde a prática do culto à personalidade era a marca dominante.
Desde a posse de Marco Polo Del Nero a situação mudou. Não morro e nunca morri de amores por ele, que representa muito a síntese do dirigente de futebol brasileiro, mas tampouco sou ou posso ser cego e deixar de reconhecer que a CBF respira ares diferentes. Mais modernos e um pouco mais transparentes.
Claro que quando olho para a Seleção Brasileira e vejo seu comando técnico, vem uma grande tristeza. É tudo atrasado, tudo ultrapassado, e a Seleção sequer um treinador de fato tem. Não é de estranhar nosso declínio no futebol mundial, sempre amenizado pelas vitórias em amistosos sem importância técnica.
Sintomático: os quatro times que disputaram as finais da Copa América são treinados por argentinos.
Sintomático II: a séria e excelente “Four Four Two Magazine” publicou uma lista com os 50 melhores técnicos do mundo. Não há brasileiros nela. Nem no plural, nem no singular. E dos cinquenta listados, somente um trabalha no Brasil: o colombiano Juan Carlos Osorio, treinador do São Paulo.
Se Del Nero mantém a Seleção na mesmice de sempre, temos por outro lado a instalação do Conselho Técnico e, principalmente, sua autonomia, medidas extremamente positivas no sentido de valorizar e dar voz e poder aos clubes. Como eles irão usar é outra história.
Também positiva foi a mudança no Estatuto, estabelecendo o mandato do presidente e vices em 4 anos, com direito a uma só reeleição. Essa medida antecipou o que a MP 671 determina, de uma forma que eu, pessoalmente, considero inconstitucional e invasiva da vida de entidades. Pelo sim, pelo não, a mudança já foi feita.
É interessante notar que a CBF excluiu de seu Estatuto o artigo que obrigava as federações filiadas a reproduzirem a mesma determinação, que foi trocado por uma disposição transitória que recomenda às filiadas que procedam a essa mudança em seus estatutos. Formalmente correto, politicamente também correto.
Esse é um ponto, talvez o único, que critiquei na MP 671 desde o início: a intromissão do Estado na vida das entidades, querendo estabelecer mandatos, reeleições, limites de gastos, limites de déficits… Ora, pessoas e entidades devem ser livres para tocarem suas vidas e não compete ao Estado determinar como devem fazer ou quanto devem gastar…
Outra mudança excelente, boa demais, foi a determinação, finalmente, para os árbitros atuarem com rigor contra os excessos em reclamações de atletas e membros de comissões técnicas, medida que já comentei em outro post.
Segundo dirigentes da CBF, essas alterações já estavam planejadas, mas não é difícil que a iminência da aprovação da MP 671 e os eventos do 27 de Maio tenham acelerado e talvez até ampliado um pouco as mudanças.
De um jeito de outro, é um elenco de boas mudanças, na maioria. Que continuem.
Post scriptum
Esse post já estava pronto quando foi divulgado pela Folha de S.Paulo que o presidente da CBF não comparecerá à reunião do Comitê Executivo da FIFA, que definirá a eleição para a sucessão de Blatter.
No decorrer do dia, Jamil Chade, correspondente do jornal O Estado de S.Paulo em Genebra, informou que a ausência de Del Nero deixou dirigentes da FIFA irritados. Outro motivo para a irritação com Del Nero foi o fato dele ter abandonado Zurique logo depois das prisões de 27 de maio. Foi o único dirigente a fazer isso.
Ainda segundo Jamil, um dos patrocinadores mundiais da FIFA, dirigente de uma companhia americana, disse “…o Brasil é uma sombra do que foi”.
Institucionalmente, essa nova ausência não é interessante para o futebol brasileiro. Em termos práticos ocorre o mesmo e o Brasil, e por extensão a América do Sul, fica enfraquecido desde já no que começa a ser chamado “a nova FIFA”.
Convém que o presidente Del Nero pense a respeito.
Se ele vai continuar a manter-se ausente dos eventos internacionais, como a final da Copa América, aqui mesmo, ao lado de casa, e das reuniões do Comitê Executivo da FIFA, sua gestão perde sentido.


























