Fonte: República Paz & Amor
Na virada da década de sessenta para a de setenta, a seleção iugoslava tinha um excelente ponta-esquerda chamado Dzajic. Na mesma época, brilhava na seleção romena o rápido e perigoso atacante Dumitrache. No entanto, sempre que o Brasil enfrentava a Iugoslávia, a Romênia ou outro desses times de um homem só, João Saldanha procurava tranquilizar a nação: bastava marcar o Dzajic, ou o Dumitrache, porque o resto era “tudo japonês”.
Nesses chatos e patrulhados tempos em que vivemos, a frase de Saldanha seria inadequada – ele provavelmente sequer a diria – mas, sempre falando a linguagem do povão, Saldanha pregava a ideia de que esses adversários não deveriam nos preocupar, pois, tirando aquele único grande jogador, os demais não exigiam maiores cuidados. Era tudo igual. Tudo japonês.
Não há nenhum time extraordinário no Brasileirão. Também não há um só craque em campo, craque de verdade, desses capazes de levar um campeonato nas costas. Isso faz com que qualquer time com um elenco de razoável nível técnico e boa organização tática tenha condições de brigar.
Perdemos um tempo precioso em 2015, devido à arrogância e à teimosia típicas do nosso ex-treinador-estrela, mas são águas que passaram e há que se olhar para a frente. Talvez por insegurança, talvez por seu estilo menos impetuoso, ou, ainda, pela pressão de comandar um time com desmedido nível de cobranças – acho bobagem, por exemplo, a torcida ter queimado o Pará, que não é nada do outro mundo mas pode ser útil –, Cristóvão tem revelado tibieza para promover mudanças que se mostram óbvias, além de hesitar quanto às necessárias substituições que certas partidas exigem.
Todavia, creio que no jogo com o Grêmio fez-se a luz – e muito mais até do que nos dois a um sobre o Inter, no Beira-Rio. Lá, jogamos bem, construímos a vitória sem correr riscos e o surpreendente Emerson deu mais uma aula de atuação voltada para o coletivo, mas seria infantilidade esconder o fato de que o Inter estava com a cabeça nas semifinais da Libertadores. Ok, temos nada com isso, fizemos a nossa parte e trouxemos os três pontos. Só que voltamos a virar abóbora às 16 horas do domingo seguinte, na infeliz apresentação diante do Corinthians.
Sábado foi diferente.
Pra começar, não convém desvalorizar o time do Grêmio: é bem bom. Vi o primeiro tempo de Grêmio x Vasco, na semana passada, e foi um massacre. Além de um meio-campo composto por quatro caras que sabem jogar bola, o Grêmio tem dois atacantes de velocidade e intensa movimentação (Luan é ótimo jogador) trabalhando pelos lados do campo e abrindo caminho para as infiltrações de Giuliano, o mesmo que foi peça-chave na conquista da Libertadores de 2010 pelo Inter. É um Grêmio muito mais leve e interessante do que nos acostumamos a ver, embora o zagueiro Geromel mantenha a tradição de descer a madeira com convicção.
Pois então: enfrentando esse bom time, vindo de uma sequência de maus resultados no Maraca e diante da perspectiva de protestos das cinquenta mil pessoas presentes, caso mostrássemos fraqueza e indecisão, fizemos nossa melhor partida no ano.
Claro que houve falhas e o Grêmio teve chances. Não há time de futebol que jogue com a mesma eficiência durante quase cem minutos, e é impossível que um adversário com boa qualificação não assuste em três ou quatro momentos. Mas não precisamos colaborar. Aos 14 minutos do segundo tempo, passamos perigo depois de perder uma bola na frente da área do Grêmio, em uma tabela malfeita entre Marcelo e Wallace.
Não se assuste quem não viu o jogo: não há erro de revisão na frase anterior. Sim, foi uma tentativa de tabela entre os nossos zagueiros, diante da área do Grêmio. Se Marcelo e Wallace já são confusos e inseguros jogando onde têm que jogar, que peste de tabelinha eles foram tentar lá na frente? E o pior: com o placar em um a zero a nosso favor. Detalhes como esse precisam ser observados, criticados e corrigidos, para não corrermos riscos desnecessários além daqueles que, como é natural em um jogo de futebol, adversários competentes são capazes de nos impingir.
Sábado o time mostrou muito mais organização, e confesso não dar a mínima para nossas vitórias por “apenas” um a zero. A evolução da preparação física, a diminuição drástica dos espaços – o tal negócio de deixar o time inteiro atrás da linha da bola –, muita coisa vem fazendo do futebol um jogo de oportunidades cada vez mais raras. (Daí a importância de um cara feito o Guerrero, que não costuma desperdiçar as que lhe aparecem, além de ser, de todos os que vi jogar ultimamente, o centroavante que melhor apara e prende a bola naqueles chutões que os goleiros são obrigados a dar.) Sem querer misturar alhos com bugalhos, vale lembrar que a Espanha levantou a Copa de 2010 vencendo os quatro jogos das fases decisivas por um a zero. A Alemanha faturou a final da Copa de 2014 com outro um a zero. Não queria falar de novo do Corinthians, para que não me entendam mal como aconteceu no último post, mas o time que beliscou o Brasileirão de 2011, a Libertadores e o Mundial Interclubes de 2012 era especialista em ganhar por um a zero.
Além da melhor arrumação em campo, outros pontos fundamentais na vitória sobre o Grêmio foram a dedicação e a atitude, que se encaixam no que repeti no texto da semana passada: a tal história de que precisamos jogar no limite das nossas possibilidades. Nada a ver, portanto, com o que sofremos nas partidas contra Fluminense, Atlético Mineiro e Corinthians, em que fomos para o intervalo já tendo tomado dois gols no lombo e apresentando um monte de falhas que refletiam descontrole e desequilíbrio.
Nossa situação na tabela ainda é incômoda, mas a atuação de sábado foi consistente e animadora. Temos que aprimorar o padrão de jogo, manter o espírito de luta e ser mais firmes do meio para trás, deixando que a velocidade de Everton, a disposição de Emerson e o faro de Guerrero resolvam lá na frente. Temos que controlar a ansiedade, convencer Canteros a jogar de um jeito simples, obrigar Marcelo e Wallace a só cozinharem feijão com arroz.
Parece muita coisa e um tanto difícil, mas não é não. Se foi possível fazer tudo isso contra o bom time do Grêmio, podemos voltar a fazê-lo contra qualquer outro do futebol brasileiro. Porque, tirando uma coisinha a mais aqui, outra a menos ali, é tudo japonês.



























Boa analise. Mas ainda comentando o jogo de sábado: que porra o Wallace tinha que falar besteira? Ele como bom pensador e capitão do time, deveria assistir suas atuações e refletir sobre suas falhas grotescas. SRN!
Entendemos o que quiz dizer, só que não foi um comentário sobre o jogo.
Ótima postagem, bem a altura da 'República Paz e Amor' Flamenguistas da melhor qualidade. Foi o mesmo que pensei depois do jogo se podemos ganhar de um gigante do futebol brasileiro que rapidamente se reinventou com o Roger que com uma garotada ascendente estava jogando muita bola, embora esteja sentido o desgaste físico da sequencia de vitórias, conseguidas com o máximo de intensidade, que chegou a liderar o Campeonato e está brigando lá em cima, então podemos jogar de igual pra igual com muita gente grande do Campeonato, basta manter o espirito de Flamengo e ter o Emerson e o Guerreiro em campo é claro.