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“Elitização do futebol”: um contraponto

Redação
Redação
Publicação: 04/09/2015
Nenhum comentário
Atualização: 04/09/2015
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Na última sexta-feira, a coluna “Época Esporte Clube”, de autoria do jornalista Rodrigo Capelo – trouxe à tona um velho debate sob nova roupagem. Trata-se da polêmica acerca dos preços cobrados pelo futebol no Brasil, em comparação aos principais mercados futebolísticos concorrentes. Partindo do salário mínimo e do menor preço dos ingressos, o autor conclui que o trabalhador brasileiro é quem precisa trabalhar mais tempo para garantir um lugar no estádio. Com base na torcida cruzeirense, seriam pouco mais de dez horas trabalhadas, contra menos de sete horas em países como Espanha, Inglaterra, Portugal, Itália e Argentina.

Ao expor os números, o autor conclui que os preços no Brasil deveriam ser menores – mesmo que não no estádio inteiro – já que uma “arena se lotaria de baixo para cima”. A afirmação, aparentemente um axioma, se mostra um tanto simplista ao analisar premissas e números com suficiência apenas parcial para a conclusão. Por conta disto, o Blog Teoria dos Jogos elaborou um contraponto na forma deste texto.

Primeiramente, o valor do ingresso mínimo utilizado foi de R$ 50 em partidas do Cruzeiro. Para outros, como o Atlético-PR, o valor chegava a R$ 100. Mas se estes são os respectivos valores mínimos, por que seus tickets médios são tão mais baixos? (clique em “Ingressos”) A resposta reside em expedientes brasileiríssimos como meias-entradas e gratuidades, além dos benefícios proporcionados pelos projetos de sócio-torcedor.

Mesmo que estes elementos tenham sido citados por Capelo no texto (ou seja, não foram de todo ignorados), eles acabaram subestimados. O efeito da lei das meias-entradas, por exemplo, é muito relevante. Na 21ª rodada da Série A, tais ingressos representaram nada menos que 19% das vendas totais – chegando a 56% no Rio de Janeiro, segundo levantamento do Blog:

Fig 01

Se o benefício é impertinente ou mal utilizado, é outro debate. Mas só com base nas meias, o preço mínimo a ser considerado já cairia muito. E o que dizer das tantas leis de gratuidades, cortesias e outros benefícios? E os projetos de sócio-torcedor, com mais de um milhão de adeptos entre os heavy users das 20 maiores torcidas? Mesmo não sendo uma exclusividade brasileira, não são todos os países que se valem dos descontos para sócios – na Inglaterra só se vendem carnês. Assim, em detrimento de ingressos e rendas mínimas, seria mais pertinente utilizar o ticket médio dos campeonatos (inferior a R$ 30 no Brasileirão) junto à renda médias dos países.

Em segundo lugar, embora realmente exista uma elasticidade que faça as torcidas responderem positivamente a descontos (algo já muito trabalhado neste espaço), outra característica brasileira é a de responder apenas de imediato ou enquanto existe demanda reprimida. Quando esta é saciada, os adeptos tendem a tomar os preços como dados, ignorando-os. E deixando estádios vazios mesmo a R$ 20 ou R$ 10. Por quê? Porque o problema do futebol brasileiro não reside numa questão de preço, mas de produto. As excelentes médias das novas arenas não nos deixam mentir: nelas o produto melhorou, ainda que tenha ficado mais caro. O que nos afasta da falácia de que os expropriados de baixa renda “compareciam toda quarta e domingo para apoiar o time”.

Um terceiro e último ponto de discordância seria a necessidade de o PROFUT especificar quantos devem ser os ingressos populares e a que preço. Questão de ideologia ou não, parecem sábias as palavras do blogueiro Emerson Gonçalves, do Blog Olhar Crônico Esportivo a este respeito. Segundo ele, “é razoável e até necessário que o Estado legisle. Mas também necessário que clubes de futebol, assim como pessoas, não sejam seus reféns”, pois “mercados livres são sempre mais eficientes” e “a entrada do Estado representa, mais dia, menos dia, a entrada de interesses que manipulam a realidade de acordo com os desejos dos que fazem a política”. É bem por aí.

Equivocam-se os que consideram a queda de preços como solução mágica para retornarmos ao que nunca fomos. De fato parece haver precificações equivocadas em setores da Arena da Baixada, do Grêmio ou do Mineirão. Assim como, para o Palmeiras ou o Maracanã Mais – primeiro setor a esgotar em clássicos no Rio – a medida certa foi subi-los. E nem todo problema é solucionável: se o Corinthians eliminou capacidade ociosa baixando preços na Arena, não há desconto que faça o Fluminense, com 12% da torcida em sua sede, encher uma arena para 78 mil.

Como tudo na vida, preços também se estabelecem na base da tentativa e erro. Poderiam se valer de técnicas mais refinadas, é verdade, mas questões do dia-a-dia também levam à expertise. Em vista das dificuldades, o preço dos ingressos no Brasil das novas arenas parece aos poucos caminhar na direção de um bom termo.

Um grande abraço e saudações!

Fonte: Teoria dos Jogos

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