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Tempos de mudanças no futebol mundial e brasileiro

Redação
Redação
Publicação: 05/10/2015
1 comentário
Atualização: 05/10/2015
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Estamos a 89 dias do final de 2015. Mesmo assim, já dá para dizer que o futebol será outro, de 2016 em diante. O “27 de Maio” foi um evento marcante e sinalizou, com clareza, que uma era chegava ao fim.  Naturalmente, uma nova era está nascendo, mas não temos, ainda, clareza suficiente para saber como ela será. Essa não é a primeira vez que toco nesse tema e, certamente, não é a última.

Há poucos dias, em 17 de setembro, Jerôme Valcke, o poderoso secretário-geral da federação mundial do futebol e que nessa função disse que um certo país precisava de um chute no traseiro para acelerar as obras para uma certa Copa do Mundo, foi afastado de suas funções em virtude de acusações de vendas de ingressos para jogos da Copa do Mundo no Brasil.

Poucos dias depois, aparentemente de repente, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, recluso desde 27 de maio em sua Suíça natal, foi indiciado pelas próprias autoridades helvéticas num processo que poderá leva-lo a cumprir até 10 anos de cadeia, motivado por sua gestão à frente da entidade.

Ontem, mal iniciado o quarto e último trimestre desse ano, quatro das maiores e mais importantes companhias do mundo, todas elas respeitadíssimas por suas marcas e seu marketing, emitiram notas oficiais pedindo o afastamento imediato de Blatter da entidade: Coca-Cola, McDonald’s, Visa e Budweiser (uma das empresas do grupo AB INBEV). Mais que provável, já é esperado um pronunciamento de outro gigante, igualmente patrocinador da FIFA, a Adidas.

Para a eleição no início de fevereiro surgiu um complicador, cuja dimensão ainda não podemos avaliar: o principal candidato à sucessão de Blatter e atual presidente da UEFA, Michel Platini, foi acusado de receber dinheiro da FIFA. Em sua defesa, corroborado por Blatter, ele diz que se tratou de pagamento legal, registrado, em troca de serviços prestados. Mas…

É hora de recordarmos a velha Roma, que é, ao lado de Atenas e Jerusalém, o berço de nossa civilização: à mulher de Cesar não basta ser honesta, ela tem, também, que parecer honesta.

Hoje, infelizmente, está difícil encontrar muita gente que seja e pareça honesta, pelo rumo que os acontecimentos estão conduzindo a bola desse jogo.

Uma onda? Não, um tsunami

Zurique gerou um verdadeiro tsunami no rumo ocidental. CONMEBOL e CONCACAF foram seriamente afetadas, com prisão de sete de seus dirigentes, todos eles figuras de proa no futebol sul e caribenho/centro/norte-americano.

A onda é forte e pegou em cheio o futebol de potências futebolísticas como o Brasil, Argentina e Uruguai (esse mais pela história), além de arrastar a Venezuela.

No caso do Brasil, o ex-presidente da federação nacional, José Maria Marin, está preso na Suíça, aguardando aprovação para sua extradição para os Estados Unidos.

Seu sucessor está livre e livre de acusações formais, entretanto, apesar disso, está tão recluso no Brasil quanto Blatter na Suíça. Marco Polo Del Nero não mais saiu de Terra Brasilis desde que voltou rapidamente de Zurique, no final de maio. Sequer foi para a Copa América no vizinho Chile, como também não foi para Portugal, onde tinha presença confirmada e necessária em torneio de futsal. E não foi para a Suíça, ausentando-se de reuniões das quais deveria participar.

Nos últimos meses a CBF, sob o seu comando, mudou bastante. Mudou para melhor.

Aqui é necessário ressaltar que algumas dessas mudanças tiveram início tão logo ele tomou posse, mas, não posso deixar de frisar que elas se aprofundaram e se alargaram na sequência do “27 de Maio”, em combinação com o avanço da MP 671 no Congresso Nacional, até ser, finalmente, transformada na Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte.

As mudanças foram profundas e chegaram ao ponto da Confederação entregar, formalmente, o total controle do Campeonato Brasileiro para os próprios clubes. A entrega foi tão completa que, aparentemente, os clubes ainda não digeriram e captaram, na totalidade, o que receberam.

A entidade está também mais ligeira, mais reativa, o que não acontecia antes sob Teixeira, cuja presidência era o que se pode chamar “imperial”, com seu presidente pouco ligando para as críticas e os críticos (na verdade, outra foi a expressão que ele usou em histórica entrevista para a revista “Piauí”, mas em nome do bom gosto vou deixa-la fora desse texto).

Ficou também pró-ativa a CBF, antecipando-se às demandas em alguns casos e necessidades. Um bom exemplo é o dos horários dos jogos, apesar da bobagem que é o cancelamento dos jogos às onze da manhã dos domingos em pleno horário de verão, quando, como expus no post anterior, o jogo decorreria entre o horário solar – que é o que conta para a fisiologia – das dez ao meio-dia, terminando muito distante do pico de calor, que se dá por volta de duas horas da tarde, no horário solar, ou três da tarde pelo horário oficial de verão.

O alerta vermelho do dinheiro

O grande impacto desse final de semana é, sem a menor dúvida, o posicionamento dos quatr grandes patrocinadores da federação mundial. É muito dinheiro, dinheiro grosso e falando pesado. Transcrevo trecho da nota da Coca-Cola:

“Para o benefício do jogo, a Coca-Cola quer que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, saia imediatamente para que um processo de reforma crível e sustentável possa começar seriamente. A cada dia que passa, a imagem e reputação da Fifa estão sendo ainda mais manchadas. A Fifa precisa de uma reforma abrangente e urgente, o que só pode ser realizado através de uma abordagem verdadeiramente independente.”

A Coca-Cola é patrocinadora da FIFA desde 1974 e o McDonald’s desde 1994. Não é pouca coisa e são muito representativos do grande mundo do marketing. Empresas desse porte e características são lideres e seus comportamentos e posicionamentos costumam ser seguidos.

Em 2013, a FIFA faturou US$ 1,4 bilhão. Desse total, um bilhão veio do marketing.

Em 2014, fora as receitas com os direitos de transmissão, somente com marketing a receita da FIFA foi de US$ 1,6 bilhão.

Esses números deixam claro o peso das declarações oficiais dos quatro patrocinadores.

No Brasil…

Em 2013 a CBF teve uma receita total de R$ 436,5 milhões. Desse total, 63,7% vieram dos patrocinadores da Seleção Brasileira, que são, na prática, patrocinadores da Confederação.

Em 2014 a receita total pulou para R$ 519,1 milhões, dos quais 69,2% vieram dos patrocinadores, num total de R$ 359,4 milhões.

Comenta-se que vários patrocinadores da Confederação já emitiram o que podemos chamar de discretos alertas amarelos para a entidade. E a saída mais comum, que é e não é verdadeira, é dizer que patrocinam a Seleção Brasileira de Futebol. O problema é que a Seleção é, justamente, o principal, o grande, o maior produto da Confederação.

Os patrocinadores no Brasil, a exemplo dos patrocinadores em Zurique, primam por serem empresas de ponta nos mais diversos quesitos: tamanho, receitas, nome, prestígio e todas elas têm enorme preocupação com suas marcas e comportamentos em seus mercados e nas relações com a sociedade e com o Estado em todos os países em que atuam.

Por tudo isso, não será de estranhar se em algum momento, dependendo dos rumos tomados pelas diversas investigações que estão sendo levadas a cabo na Europa e Estados Unidos, algumas dessas empresas também se manifestem com dureza e força em relação à federação brasileira. Por fim, mas não menos importante, um dos patrocinadores principais da CBF é o Guaraná Antárctica, produto da Ambev, que é uma das empresas do grupo AB Inbev, a exemplo da Budweiser, uma das quatro empresas que emitiu nota a respeito da permanência de Joseph Blatter à frente da FIFA. E a AB Inbev é conhecida por ser uma empresa belgo-brasileira.

Com relação à CPI em curso no Senado… Nada a comentar. Ao menos por enquanto.

Libertadores das Américas?

É nesse cenário que começam a surgir propostas como a que vem ganhando espaço na imprensa nos últimos dias, sobre a criação de uma “Champions League” americana. Sem dúvida, se há um momento propício para tal tipo de especulação ou proposta séria, é justamente agora.

Fica para uma próxima vez, porém, falar a respeito.

Fonte: Olhar Crônico Esportivo

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1 comentário
  • alexon breda disse:
    05/10/2015 às 19:11

    Texto bom, com certa coerência.
    Mas vou me permitir jogar uma pergunta no ar?

    Para ter corrupto necessariamente tem que haver corruptores.

    Qual o papel de alguém que patrocina uma entidade, CORRUPTA, desde 1974, 1994?

    Como se consegue uma exclusividade quase infinita neste campo tão competitivo?

    Me chama atenção que todas as quatro empresas citadas são norte americanas (a Bud ai é recente a questão de sua aquisição/nacionalização, aqui é para quem acredita que seu dono é brasileiro com B maisculo), em tese o futebol (soccer) está longe de ser prioridade para os norte americanos como esporte numero um (desde 1974, 1994…).

    Ainda não consegui formar minha opinião completamente, mas tem peças soltas neste quebra cabeça e esta dos QUATRO é bem estranha para mim, aguardarei os próximos lances.

    Responder

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