Como qualquer rubro-negro normal, já estava com coceira depois de ficar tanto tempo sem comemorar titulo no futebol. O jogo de segunda-feira foi um bálsamo. Nós, rubro-negros de raiz, meio que nos viciamos em gritar É Campeão! todo ano. E esses longos períodos do Mengão na muda nos provocam excruciantes crises de abstinência. Vencer aquela disputa de pênaltis foi catártico.
Assim que terminou a final da Copinha, entre talagadas de inebriantes beberagens consumidas desde as 10 horas da manhã e gritos exaltando o Mengão dirigidos aos transeuntes, que incautos transitavam pelo logradouro onde está sita minha humilde residência, percebi, assim do nada, que os times vencedores da Copa São Paulo, todos eles e não apenas o Flamengo, se parecem muito com Álvares de Azevedo.
Se você é daqueles que conseguia ficar acordado durante as aulas de português certamente já ouviu falar em Álvares de Azevedo, o poeta ultrarromântico, patrono da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras, autor de Lira dos Vinte Anos e, entre contos, peças teatrais e ensaios, dos versos “Ah! que véu de palidez/ Da langue face na tez!/ Como teus seios revoltos/Te palpitavam sonhando!/ Que por um beijo perdido/ Eu de gozo morreria/ Em teus níveos seios nus?/ Que no oceano dum gemido/ Minh’alma se afogaria?/ Ai Jesus!”.
Álvares de Azevedo foi o protótipo do poeta romântico, intenso, apaixonado, inexperiente, camisa 10 do sentimentalismo nacional, o Mal du siècle. Fã de Lord Byron e Musset, Álvares de Azevedo, como muitos heróis do romantismo, morreu com apenas 20 anos. Da bizarra combinação de tuberculose e tombo de cavalo. E é justamente nessa mui breve existência e na sujeição à imprevisibilidade do destino que percebi a sua parecença com os moleques do Flamengo Tri Campeão.
Como em Álvares de Azevedo, no peito dos moleques tricampeões do Flamengo também ardem a chama da paixão e emoções ambíguas próprias da adolescência, uma fase da vida ao mesmo tempo frágil e poderosa, que ainda não se definiu. Aos 20 anos, não importa o quanto você seja bom de bola ou de versos, paixão e morte caminham em paralelo. É verdade que no peito de Álvares de Azevedo também estava o bacilo de Koch, ameaça bacteriana definitivamente afastada de nossos saudáveis rapagões, mas o tombo do cavalo é para todos eles um perigo real e imediato.
Para os poetas românticos a morte é a sombra constante, em oposição à mulher amada, idealizada, inatingível e raramente finalizada. Para os jovens tricampeões a ameaça da morte é de uma outra natureza que a da morte física. Para eles a morte está na promessa não realizada, a morte da carreira obscura longe dos grandes clubes, a morte ainda mais dolorosa da desistência que os levará a um emprego sem graça com salário certinho e muito, muito longe das incertezas, caprichos e luxos do mundo da bola. O que talvez seja a mais medonha de todas mortes.
Mas quantas e quantas vezes a história se repetiu? Quantos times brilhantes de jovens com menos de 20 anos foram capazes de encantar a todos no verão para no outono mergulhar na mais densa das obscuridades? Onde estão os talentosos vencedores da Copinha 2011? Onde estão Adryan, Negueba, Rafinha e Marlon? Por que não estão luzindo com as roupas e as armas da Nação Rubro-Negra?
Ainda que estejam vivendo o seu sonho de serem boleiros, suas realizações esportivas estão muito aquém daquilo que nós, torcedores, projetamos para os seus respectivos futuros. E se nós podemos dizer que ficamos um pouco decepcionados com rumo que suas carreiras nos campos tomaram, imagina eles.
Não é nenhuma inconsequência afirmar que vencer a Copinha é fácil diante da missão quase impossível de garantir aos seus vencedores uma carreira estável de sucesso e ascensão constantes. A estatística mostra que, sejam de que time forem, apenas uma ínfima parcela dos campeões sub-20 conseguem vingar. O funil do futebol profissional é muito apertado e ter uma Copinha no currículo não é garantia de nada.
O destino dos nossos moleques tricampeões creio não estar mais nas mãos do Flamengo. A Copinha foi o rito de passagem para essa geração 96. Pra base eles não podem mais voltar, a fila anda e agora eles terão obrigatoriamente que abrir seu caminho e conquistar seu espaço entre os profissionais. Já sabemos de antemão que no Flamengo lugar para todos não haverá. A morte, aquela morte simbólica de uns parágrafos acima, ronda a todos.
(…)
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
(…)
Felizmente, para eles e para nós, a paixão nos ronda também. Parabéns e vida longa para os Tri Campeões da Copa São Paulo.
Mengão Sempre
Arthur Muhnlenberg
Fonte: República Paz & Amor

Arthur Muhnlenberg é o Zico das resenhas e crônicas do futebol. O cara é foda.
Este texto deveria ser passado para os meninos tri campeões da copinha, no intuito de que percebam que a morte do leão tem que ser diária.
Arthur Muhnlemberg é um craque nos comentários.
SRN