Ele é um dos personagens mais falados no futebol. Geralmente é o mais cortado. Vai de gênio a burro em minutos. Pode ser demitido pelo erro dos outros, ou levar a glória pela competência de muitos. Está sempre sob pressão, e mesmo solitário, toma decisões que podem custar títulos ou doídas derrotas.
Sim, ele é o técnico de futebol. E hoje, 14 de janeiro, é o dia que o representa, nesse esforço contemporâneo em nomear dias para se lembrar de uma figura. Já que a proposta é essa, a pergunta:
Será que você entende exatamente qual é o trabalho do técnico do seu time?
Em nossa cultura futebolística de valorização do indivíduo e dos heróis, a resposta mais comum poderia ser: “o técnico escolhe os melhores jogadores, dá uma orientação aqui e acolá e vai pro jogo”. Outros, mais conscientes do cotidiano dos clubes, poderiam falar: “ele chega com algumas ideias, vai treinando os caras, opina nas contratações de x ou y e é cobrado pelo desempenho em campo”. Outros poderiam dizer que o trabalho do técnico é “não atrapalhar”.
As respostas não estão erradas, mas também não estão certas. Para entender o trabalho de um técnico de futebol é preciso deixar as certezas de lado e assumir que o futebol tem uma natureza tão incerta quanto a sorte e tão certa quanto a morte.
Se é tão complicado, logo só saber de futebol não ajuda muito. Tática, técnica, fisiologia, genética, psicologia, sociologia, economia, antropologia, neurociência….áreas do conhecimento humano, que juntas, interligadas (e não somadas como é falado) e relacionadas entre si podem dar um parecer sobre o movimento de um jogador, um gol de título ou uma fratura no joelho. O técnico administra esse conhecimento, sabe de tudo um pouco e une os saberes de sua comissão para um objetivo em comum: em todos os clubes o objetivo é ganhar.
Ou seja, difícil. Difícil pra caralho. Muita coisa pra saber, pouco tempo pra aplicar. Já dá para ter uma noção de como é inexato e inapropriado chamar o técnico de burro, sendo que muitas coisas estão fora do alcance dele. Qual é a responsabilidade do comandante se o jogador não dormiu direito, chegou cansado pro jogo e não foi bem? Ou se o time criou chances e fez tudo certinho, mas o zagueiro errou um lance – o gol da derrota? Se o futebol é essa mistura de assuntos, o trabalho do técnico deve se focar em controlar o que está sob alcance: o trabalho é controlar o certo em meio ao caos.
Por isso os treinos (para dar um formato à equipe, uma orientação de como o jogador deve proceder, o acompanhamento com a nutricionista, a motivação no vestiário…tudo pode assumir n formas e contextos. Depende do que o técnico acredita, do que ele entende como futebol.Não existe filosofia melhor ou pior. Existe a filosofia do técnico. Entendê-la é o básico para poder criticá-la.
Não, não está proibido xingá-lo. Nem tratá-lo como um deus. Você também não precisa se tornar um especialista em tática e termos técnicos. Apenas assuma que quem está de fora não sabe nem 1% do que acontece no dia-a-dia. De que jogar – e jogar bem – é algo muito difícil, e nem sempre possível. E que criticar, com base e entendimento, não é ofender, mas sim ajudar. Com respeito e conhecimento tudo fica melhor.
Fonte: Painel Tático
