Criada em meio a uma rara aglomeração de interesses distintos, a Primeira Liga não começa como seus idealizadores imaginaram. Foi bombardeada politicamente, teve jogos confirmados às vésperas da primeira rodada e um deles, a estreia de hoje do Fluminense, oferecerá ingressos em troca de 1 kg de alimento. A Liga colocou a hierarquia do futebol à prova e sofreu retaliações. O impasse pode parar na Justiça, uma vez que a CBF só autorizou a primeira rodada. Os clubes garantem que irão até o fim.
A Federação do Rio promete exigir que a CBF notifique Conmebol e Fifa da insubordinação caso aconteçam partidas da Liga sem permissão oficial. Dirigentes da CBF já admitem a medida.
— A CBF é que vai decidir: se vai ficar do lado da legalidade ou do lado da milícia — disse o presidente Rubens Lopes, referindo-se a Fla e Flu.
Mas a nova entidade padeceu também de suas divergências internas. Em Santa Catarina, o antagonismo político entre o presidente da federação, Delfim Peixoto, e a CBF mobilizou os clubes. Para os cariocas Flamengo e Fluminense, a ruptura irreconciliável com a Ferj atraiu a dupla a uma liga que, inicialmente, se chamaria Sul-Minas.
Há visões distintas do futuro do processo. Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, é cauteloso quanto à criação de uma Liga Nacional: diz não ser este o objetivo.
Por sua vez, o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, enxerga na fragilização da CBF uma possibilidade de um movimento nacional. Mario Celso Petraglia, ex-presidente do Atlético-PR, é visto por outros dirigentes como dono de aspirações nacionais e defende a ampliação das fronteiras. A falta de um norte político levou à crise após Alexandre Kalil, nomeado CEO da liga, atacar a CBF num tom acima do que muitos dos filiados gostariam. Deixou o cargo. Depois, uma disputa pela presidência levou ao afastamento temporário de Gilvan Tavares, mandatário do Cruzeiro. A liga passou algumas semanas sem um executivo, até que Fred Luz, do Flamengo, assumiu a função.
A forma de olhar o torneio também varia. O Grêmio vai enfrentar o Avaí com reservas e não priorizará a competição. Flamengo e Fluminense admitiam até romper com o Estadual e usar reservas no torneio carioca para se fortalecer contra a Ferj. Foram obrigados a usar titulares também na competição local, por compromissos comerciais. A busca por receitas decepcionou: a venda de direitos para um torneio de cinco datas não atraiu investimentos vultosos.
BRIGA JURÍDICA À VISTA
No entanto, realizar o torneio, ainda que por motivos distintos, é algo que une os dirigentes da Rio-Sul-Minas. E com a iminência da primeira rodada, restava à CBF se posicionar. Fragilizada politicamente, tentou assumir o papel de mediadora e, diante do impasse, entregou às federações o papel de punir clubes caso a participação em um torneio não reconhecido ferisse estatutos. Foi o caso da Federação do Rio. Seu presidente, Rubens Lopes, foi além: anunciou punições incluídas no regulamento local, mas exigiu da CBF mais firmeza. Em parte, obteve o queria: a confederação manifestou-se oficialmente contra a competição.
A repercussão da primeira rodada impactará a negociação com CBF e entidades estaduais sobre o resto do torneio. Nos bastidores, espera-se uma briga jurídica. O direito de associação garantido na Constituição, assim como a proteção à organização de ligas que consta na Lei Pelé, também federal, amparam os clubes. No entanto, os estatutos do futebol preveem sanções a quem disputar torneios alheios ao sistema da Fifa. A nós, resta assistir.
Fonte: O Globo

Impressiona que as reportagens da globo sempre coloquem a primeira liga em cheque sendo que ela comprou os direitos… Estranho demais.