Interinidade
substantivo feminino
1. 1.
qualidade do que é interino, temporário.
“a i. de um cargo”
2. 2.
estado de interino; interinado.
“serviu em i. pelo período de um ano”
3. 3.
exercício provisório de função ou cargo público.
Imagino que o Flamengo esteja, no exato momento em que você avança por estas mal traçadas, ainda dedicado ao trabalho interminável de planejar, no caso replanejar, todo o seu 2016. A saída do Muricy, vetado por diversos Departamentos Médicos, certamente bagunçou a mente da rapaziada. Rolou um certo corre-corre, nas redes sociais alguns pulsos foram cortados ante a ameaça de Joéis e Abéis.
Mas fora alguns desmaios dos mais sensíveis, quando a fumaça branca subiu na Gávea e Zé Ricardo, treinador do laureado Sub-20, foi ordenado pelos cardeais rubro-negros, os únicos feridos eram alguns radicais que exigiam a contratação do, ainda caro para o nosso bolso, chileno Sampaoli. Mas agora está tudo muito mais calmo. Ainda que, teoricamente, o Flamengo continue sem treinador.
Porque Zé Ricardo estreou bem no tiroteio em Campinas contra a Ponte e se saiu melhor ainda contra o Vitória, ontem em Volta Redonda. O time, com a exceção de Muralha no lugar de PV, é o mesmo que foi a campo 300 vezes e não jogou nada. Mas algo aconteceu entre o ônibus e o vestiário. De repente se percebe naqueles mesmos jogadores que estavam sempre cansados e reclamando das viagens uma disposição, um élan, ainda desconhecidos para a torcida.
E olha que Zé Ricardo escalou vários desafetos da torcida, Márcio Araújo, quase todo o Bonde da Stella, César Martins, Gabriel, Cirino e quem você quiser completar a lista. O que me causou a excelente impressão de que Zé Ricardo está cagando e andando pros afetos da torcida. Ponto pra ele. Contra a Ponte foi no sufoco, mas o que vimos em campo contra o Vitória foi um Flamengo mais brigador, com Arão assumindo a responsabilidade de jogar em time grande e o Felipe Vizeu tipo bomba.
Tem o dedo do Zé Ricardo aí? Deve ter. Mas a verdade dos fatos é que o Flamengo que voltou ao G4 do Brasileiro após longa ausência é ainda time de Muricy, que ironicamente, vive seu melhor momento no Flamengo. Zé Ricardo aos poucos vai imprimir sua marca no time, essas coisas não acontecem de um dia pro outro. Competência ele já mostrou no Sub-20, é um treinador que sabe trabalhar e, mais importante, ganhar com a molecada. Isso conta muito ponto.
E enquanto Zé Ricardo continuar sob o opaco manto da interinidade tudo vai ser mais fácil. A tradição dos interinos no Flamengo é poderosa, une Carlinhos Violino, Andrade e Jayme. Mas todos se lembram do dramático processo de promoção de interino a efetivo no cargo de técnico do Flamengo, talvez o cargo mais público do país. No momento seguinte ao da efetivação o novo salário do treinador vira o centro das atenções e começa o mimimi sem fim. Pra que repetir de novo tudo que já rolou antes e só trouxe aborrecimentos?
Quem sou eu pra me meter a fazer planejamento. Planejamento pra mim é comprar um 6-pack, mas se eu fosse da diretoria chegava no Zé Ricardo e mandava o papo: – Zé, tu é o técnico até o fim do ano. Vamos em frente, faz teu trabalho aí sem estresse, mas vamos ficar sapato e não contar pra ninguém que tu foi efetivado.
Se fizessem assim diminuíam a pressão em cima do cara, dava um tempo na cornetagem e depois bastava combinar um aumento do dindim com o Zé e tudo certo. Mas acho difícil essa diretoria não agir rigorosamente by the book, clube cidadão, etc. Se não já teriam percebido as vantagens incomparáveis da interinidade, que é muito poder com quase nenhuma responsabilidade.
A torcida, cujo poder é discutível mas a responsabilidade é ilimitada, agora vai pro berço feliz, olhando pra tabela com o Mengão no G4 e murmurando: estão nos deixando sonhar. Mas não é sonho, é realidade. Quando o universo conspira, ninguém segura. Veja que o aproveitamento do Flamengo em jogos quinta-feira à noite pelo Brasileiro é de 100%. O Rumo ao Hepta não é maluquice, tem fundamento.
Arthur Muhlenberg
Fonte: República Paz & Amor
