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Gustavo Hofman: “Flamengo, basquete, futebol e estudo: bate-papo com José Neto”

Matheus Brum
Matheus Brum
Publicação: 27/08/2017
Nenhum comentário
Atualização: 27/08/2017
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Vivemos um período estranho em que pessoas que buscam conhecimento e profundidade em alguns temas são discriminadas. Na sociedade global a intolerância dá sinais de força diariamente, e como o esporte jamais pode ser dissociado dela, sofre junto. O debate existente hoje em dia no futebol sobre a necessidade ou não de crescer profissionalmente através de cursos, estágios ou intercâmbios apenas empobrece a mente de todos.

Em outras modalidades esportivas, o costume do aperfeiçoamente profissional não é visto com desprezo. O basquete é um desses casos. Nas últimas décadas, diversos treinadores têm buscado o conhecimento em outros mercados, principalmente nos Estados Unidos, onde a modalidade encontra o melhor nível. Dirão os reticentes que “o Brasil é o melhor do futebol, assim como os Estados Unidos no basquete”, logo não há necessidade de sair daqui. Argumento raso. A NBA hoje é mais forte do que antigamente também por causa dos estrangeiros.

Técnicos brasileiros têm viajado nas últimas décadas para universidades nos EUA e buscado ampliar seus horizontes sobre a bola ao cesto. O último a fazer isso foi José Neto, treinador do Flamengo e ex-assistente da Seleção Brasileira.

Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o clube carioca estabeleceu parceria com o Comitê Olímpico norte-americano e enviou neste mês treinadores de sete modalidades para conhecer a estrutura oferecida aos atletas de lá. Neto foi o representante do basquete e teve a oportunidade de passar uma semana com a seleção norte-americana que se preparava para a disputa da Copa América.

Conheceu primeiro a sede do Comitê Olímpico em Colorado Springs, onde ficam os centros de psicologia e fisiologia, por exemplo, e depois seguiu para Houston, onde foi recebido pelo técnico Jeff van Gundy e pôde acompanhar os treinamentos da equipe, formada basicamente por atletas da G-League.

Mas afinal, o que um técnico de ponta pode absorver em um período como esse? “Muita coisa. Nunca é demais aprender e ter contato com pessoas, com lugares que temos como referência. Absorve muitas coisas ao acompanhar os treinamentos, e não só o que eles fazem, mas como eles fazem. Como o técnico se comporta, os assistentes, a estrutura de trabalho, tudo isso engrandece muito o conhecimento”, afirma Neto.

Além de toda parte teórica, Neto retorna ao Brasil com muita prática nova também. “Cada técnico tem sua maneira de trabalhar, de se relacionar com o grupo de trabalho, e não me refiro só aos jogadores, mas todos que estão perto dele, comissão técnica, staff, médicos. O que eu vi bastante, que é bem diferente, é a quantidade de pessoas envolvidas no processo. As funções são muito bem definidas, há especialistas para cada área: os profissionais de vídeo, os fisioterapeutas, os assistentes técnicos, os médico, toda área de comunicação. São especialistas de cada área que estão ali para fazer o que eles sabem muito bem. Essa diversidade acrescente demais no trabalho do técnico”.

Van Gundy trabalhava na época com grupo de 17 jogadores, e Neto destaca a forma como ele delega treinos específicos para seus assistentes. “Eram quatro assistentes e mais alguns que estavam ali como convidados. Isso ajuda muito, eles são muito detalhistas, são muitas pessoas observando e não deixam passar nada. É um treino muito planejado, e o Jeff van Gundy é na verdade um professor, ele tem uma didática muito boa. Para muito o treino, reforça cada detalhe, para cada situação que ele quer que aconteça de uma forma”.

Van Gundy foi escolhido pela USA Basketball para comandar o time na Americup, torneio que não dará vagas para outras competições. O head coach da seleção norte-americana, porém, segue sendo Gregg Poppovich, que apareceu por lá. “Tive uma conversa rápida com o Popovich, mas ele foi super receptivo. Ele foi somente em um dia e aproveitou para conversar individualmente com cada jogador depois do treino. Depois que terminou tudo, batemos um papo. Abriu as portas dos Spurs para quando eu quiser ir, e o admiro muito, admiro muito a forma como ele trabalha”, relata Neto.

O treinador brasileiro não é um desconhecido por lá. Depois de ter passado 14 anos na Confederação Brasileira de Basketball, enfrentou muitos dos profissionais que encontrou em torneios pelo mundo, e pela primeira vez pôde acompanhar o trabalho de uma seleção que não seja a brasileira.

Aliás, sobre Seleção, cabe a ressalva: Neto era o substituto natural de Rubén Magnano no comando do time. Trata-se do treinador mais vitorioso da modalidade na atualidade no Brasil, bem visto e analisado pela comunidade do basquete e, acima de tudo, bem preparado para assumir o desafio. A CBB não pensou assim e escolheu o competente, porém com bagagem menor, César Guidetti para o cargo.

“Decepção não é a palavra. Temos que nos decepcionar com as coisas que podemos fazer e não fazemos, aí sim devemos ter esse sentimento. Aprendi muito com meu pai isso. Posso falar que fiquei decepcionado ao não ganhar o título do NBB, poderíamos ter feito algumas coisas melhores. Agora, ser ou não o técnico, não é uma coisaque depende de mim. Tudo que eu podia fazer, eu fiz e de certa maneira razoável. Talvez, por isso, muita gente, não só você, tinha essa expectativa, de que fosse uma sequência natural. Mas eu torço bastante para o César, foi meu assistente na seleção, gosto muito dele, vejo que é um cara trabalhador, respeito demais. Se ele teve essa oportunidade, torço para que tenha sucesso. Mas se eu falar para você também, que foi um pouco assim, que eu tinha a expectativa, até porque ningém falou comigo, então foi um pouco aquém da minha expectativa”, sintetiza.


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De volta ao Brasil, Neto dará sequência em seu trabalho à frente do Flamengo, que começou em 2012 e conta com quatro títulos do NBB, além de uma Liga das Américas e uma Copa Intercontinental. Bastante cobrado na última temporada, quando foi surpreendentemente eliminado pelo Pinheiros, vai encontrar nos corredores da Gávea outro treinador do time de futebol. “Ainda não tive a oportunidade de encontrar o Reinaldo Rueda”, conta. Mas quando fizer, certamente vai render uma boa conversa, como ele sempre teve com os outros que passaram pelo rubro negro. “Eu conversava muito com o Zé Ricardo. Assim como os outros técnicos do meu período no Flamengo. Sempre me aproximei deles, porque temos muitas coisas para passar uns aos outros. O mundo do futebol pra mim, como técnico, é interessante para ver a forma de trabalho. Quando veio o Luxemburgo, eu pegava um pouco dessa experiência. Sempre busco isso”.

O futebol, cada vez mais, se parece com o basquete em alguns aspectos. Diferentemente do passado, hoje em dia o jogador participa da partida o tempo todo, tanto na fase ofensiva como na fase defensiva. Aquela ideia de que o atacante podia colocar as mãos na cintura e esperar o time marcar para depois atacar não existe mais, ou ao menos está em desuso. Algo muito similar com o que acontece no basquete, onde em um espaço bem mais reduzido, o atleta ataca e marca o tempo todo em que estiver na quadra.

“Vamos partir de um princípio, que eu acredito muito, das modalidades coletivas, onde as funções têm que ser bem estabelecidas. No futebol são 11 jogadores no campo, no basquete cinco em quadra, e se um atleta deixa de fazer uma função porque ele acha que é o momento de descansar, vira um jogador a menos para o time e se tornar uma desvantagem. Cada vez mais, independente do momento da partida, ofensivo ou defensivo, cada jogador tem uma função, e a partir disso eu acredito que ele pode contribuir para que o trabalho coletivo seja mais forte”, analisa Neto. “Isso acontece muito quando o atacante perde a bola e já começa a marcar, fazer com que a bola fique no campo ofensivo. Vemos muito isso na Europa hoje em dia, os atacantes participando desse momento de transição defesa-ataque. Utilizar ao máximo possível o maior número de jogadores em campo”.

Neto poderá, também, passar o segredo da estabilidade na Gávea para Reinaldo Rueda, afinal, são cinco anos por lá. “O segredo é ter êxito. Não tenho dúvidas que muito dessa longevidade, que nem é tanta assim, mas a gente fica com isso de ‘perdeu tá fora’, o segredo é ganhar. Desde que cheguei aqui ganhamos quatro, talvez seja esse o segredo. Se eu tivesse perdido antes, talvez não estaria aqui agora”.

Fonte: Blog do Gustavo Hofman / espn.com.br

Assuntos:basqueteFlamengofutebolGustavo Hofmanjosé neto
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Publicado por:Matheus Brum
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Mineiro de Juiz de Fora; jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora; repórter da TV Vitória/Record ES; ator e escritor do livro "Entre Contos e Crônicas: Tupi 'Fantasma do Mineirão' e Sport 'Campeão do Centenário'"
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