Arthur Muhlenberg: “Trocando figurinhas”

Responsabilizar a arbitragem por maus resultados figura entre as 3 piores ignomínias ao alcance do torcedor comum. As outras duas são pagar meia-entrada sem deter legitimamente esse direito e, quando no exercício das suas funções na arquibancada, ficar mandando o torcedor sentado à frente sentar quando o Flamengo está no ataque. Mas botar a culpa no juiz fica ainda mais feio quando o Flamengo, independente de qualquer patriotada perpetrada pelos homens de preto, nega suas características, falseia sua natureza e joga muito mal.

Mas no caso do jogo de ontem, no qual o Flamengo não fez por merecer sequer o mísero ponto que colheu no gramado, vou abrir uma exceção, porque o safado do juiz nos fudeu. Deliberadamente nos criando dificuldades, não necessariamente no jogo de ontem, mas, principalmente, para a rodada seguinte. Rodada em que o Flamengo, coincidentemente, enfrentará, todo desfalcado, um clube filiado à mesma federação do espevitado, exibido e pernóstico Ricardo Marques Ribeiro. E o Flamengo vai à Minas desfalcado tanto em função da saraivada de golpes de cartão vermelho com que foi agredido pelo supracitado apitador como pelo neandertalesco complexo de galo de briga compartilhado pelos machões das duas equipes, que ainda acreditam  na lenda de que a masculinidade é uma qualidade que pode ser incrementada na base da porrada, que já se provou ser o último refúgio dos otários.

Já foi dito em ocasião anterior que o Flamengo perdeu o direito de reclamar, institucionalmente, das arbitragens porque nos roubarem na maior cara de pau deixou de ser uma excepcionalidade. Independe de competição ou federação, é todo dia, toda hora e em qualquer lugar. Crime ocorre, nada acontece, feijoada. O que não impede que a torcida manifeste seu desagrado com os altos níveis que essa peculiar modalidade de putaria alcançou no Brasileiro. Já são 3 jogos em 6 que o Flamengo foi assaltado, furtado, despojado, pilhado, subtraído ou afanado. Para encerrar o embaraço causado por esse breve momento chororô só digo mais uma coisa: se existe algo pior que um juiz que gosta de aparecer, é um juiz que tem lado. Morra, Odorico! Ladrão de cavalo!

É perfeitamente possível fazer uma análise imparcial e não clubista sobre o clássico de sábado sem que seja preciso se escorar nas falhas e incongruências da arbitragem. Que em ultima instância podem ser creditadas à própria incapacidade do Flamengo em se fazer respeitar no bas-fond confederativo nacional. Para tanto a primeira providência é admitir que o Flamengo entrou em campo já pressionado por uma suposta obrigatoriedade de esculachar a baranga. Digo suposta obrigatoriedade porque ela se baseava unicamente na forçada analogia entre dois esportes distintos que não guardam qualquer conexão entre si: o futebol e o colecionismo de cromos autocolantes.

Toda vez que se restringe a analise de um Flamengo x vasca à resultados pregressos, posições transitórias na tabela de classificação, balanços financeiros e valor dos direitos federativos dos elencos perde-se a dimensão da realidade, se despreza o peso que a tradição histórica exerce sobre o duelo. Um comportamento típico do colecionador de figurinhas encasulado nas restrições do aqui e agora. Lá dentro do quadrilátero relvado ninguém está lendo jornal, especulando nos mercados futuros ou jogando bafo-bafo. São 22 caras correndo atrás do balão de couro e, salvo as exceções de praxe, dispostos a pisar no pescoço das próprias mães para ganhar a partida. Ainda mais quando nos referimos a um clássico quase centenário em que uma porrada de valores intangíveis e de dificílima quantificação costumam ser muito mais decisivos que aqueles lançados contabilmente em folhas de pagamento. O Flamengo é o que é, e não aquilo que pretendemos que ele seja. Já passou da hora da gente aprender essa lição.

O Flamengo não entrou em campo sem vontade, longe disso. Os jogadores correram, se entregaram, se quebraram, enfim, suaram o Manto. Mas dedicação e suor não desobrigam ninguém de ser competente. E competência o Flamengo não mostrou em nenhum momento do jogo, fora na conclusão de Vinicius Junior quando marcou seu gol. A joia rubro-negra estava ligada no serviço e foi cruelmente efetivo no vacilo do frangueiro bacalhau. Mas foi só, a partir daí o Flamengo só conseguiu evidenciar sua completa desorganização tática. Enquanto isso a baranga, contrariando o senso comum e as ameaças de goleada preconizadas pelos gato-mestres, tava muito mais bem armada em campo e marcando muito melhor que o Flamengo. Imagino o constrangimento de quem, ao fim do jogo, por obrigação profissional, foi obrigado a elogiar o Zé Ricardo, o treinador-estagiário original.

Verdade que no Flamengo ninguém jogou nada, embora alguns tenham jogado mais nada do que os outros. Como, por exemplo, o Paquetá. Ainda que todo carioca saiba que quando chove, e ontem no Rio choveu demais, Paquetá é uma merda, porque não tem nada pra se fazer por lá, no Flamengo x vasca o talentoso jovem lembrou uma laranja chupada, totalmente no bagaço. À falta de maiores informações tudo indica que o justo sucesso que alcançou, e as agradáveis companhias por ele atraídas, tem lhe cobrado seu alto preço. Mas isso é especulação pura. Fora o previsível assédio que Paquetá deve estar sofrendo, ontem ele se igualou a Diego, Cuellar e Everton Ribeiro. Que nem de longe aparentam estar comendo gente em excesso.

No ataque fomos nulos, incapazes de suplantar a defesa vascaína uma única vez durante os cento e tantos minutos de jogo. E não tem como deixar de mencionar o Dourado, possuidor de um sinistro anti-magnetismo em relação à bola. A gorduchinha simplesmente não se aproxima das porções de campo ocupadas pelo cara. E nas escassas e episódicas ocasiões em que esse fenômeno ocorreu o caneludo de 17 milhões de reais deu um azar épico. Como no gol legal que ele fez, comemorado com uma vibrante e extensa simulação de auto-degolação com objeto cortante, que foi escandalosamente anulado por um dos membros subalternos da quadrilha da Federação Mineira.

Fora esse raro momento os beques dos vices ganharam todas as disputas com nosso ataque, por cima e por baixo. Enquanto a nossa própria defesa, cujos defeitos já foram exaustivamente explanados, contou mais com a sorte do que com o juízo. E ainda que coloquemos uma grande dose na culpa nas limitações dos próprios jogadores, ao treinador, ou à ausência de um, cabe a maior responsabilidade pelo barata-voa instalado em nossa cozinha. Aos poucos, com muita perseverança, o estudioso Barbieri está acabando com a boa imagem até aqui desfrutada pelo estudo.

A surpreendente liderança do Brasileiro, perdida do mesma maneira besta como se perdeu a invencibilidade no domingo passado, agora é passado, melhor desapegar. Voltemos à normalidade e àquela continha cretina cujo saldo atual indica que nos faltam 34 pontos para manter a honra intacta. Sapato, sapato, sapato.

Mengão Sempre

Reprodução: República Paz & Amor | Arthur Muhlenberg

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  • Senhores. A coisa é mais séria. Aqui na Paraíba estorou um escândalo de manipulação de resultados. O que nos impede de pensar em uma coisa desse tipo, contra o Flamengo, por ter defendido o uso do árbitro de vídeo nas partidas do Brasileirão ?? Esse campeonato está sendo usurpado das nossas mãos , descaradamente ! Já são 6 pontos literalmente roubados por supostos “erros” convenientes de arbitragem. Estaríamos disparados na ponta. E aí, todos sabem, a magnética estaria carregando o time , apesar do cansacc, até a última rodada !! A quem interessa essa sacanagem que estão fazendo, jogo após jogo ?? Diretoria !! Acorda !! Ou então, define logo a Libertadores como prioridade, assim como fez o Grêmio . Pra cima deles Mengão !

  • Kkkkkkk,boa, o elenco so tem um bom time titular.
    So contratou em.posicao nao crucial.
    Zaga, está ao léu.
    Laterais tb,mas ainda é menos crítica.

  • Conformem-se
    Não ganharemos nada com o Bandeira de Melo no Flamengo.

    Não ganhamos nada até agora, e nada ganharemos.
    Títulos, só quando o Bandeira e o SóFla estiverem longe do Flamengo.

  • Wander , Rômulo … fiquem atentos com alguém que entram aqui só pra defender presidente e relativizar derrotas.
    Esses caras não são flamenguistas, capaz de estarem vivendo as custas do clube como muitos, e por isso estão tão preocupados com a manutenção da atual gestão.

  • Incrível. Como o bandeira consegue ser relapso com a administração do futebol. Não nos livramos dos caras q não queremos…romulo, Arão, Trauco…e não contratamos um zagueiro. Pelo menos isso.
    Acho q todos os vice presidente entenderam q só com novas eleições.
    Só pode ser… perdemos oportunidades de ouro contra chape e vasco. Aí depois é aquele sufoco para correr atrás dos outros no campeonato.

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