Rodrigo Coli: “Libertadores: aprender a jogar ou fracassar”

Certa vez Eduardo Bandeira de Mello, ainda vivenciando suas primeiras experiências como presidente do maior clube do país, fez uma observação interessante sobre o papel do Flamengo na Copa Libertadores da América. Segundo ele, em um primeiro momento, a nossa preocupação deveria ser a classificação ano após ano, pois somente assim poderíamos nos consolidar como um clube tradicional a nível regional e angariar experiência para, então, alcançar o título da competição.

Tal declaração chamou muito a minha atenção, à época, visto que nosso único troféu fora conquistado exatamente à revelia do que disse Bandeira, logo em nossa primeira participação continental no longínquo 1981. Entretanto, analisando mais profundamente suas palavras, não tive como discordar, primeiro pela grande exceção que representava aquele time liderado por Zico e também pela clara diferença entre o futebol jogado pelos demais selecionados sul-americanos e os brasileiros, em especial o flamenguista, em nosso caso. Eram nítidas as causas das sucessivas derrotas eliminações para times de qualidade inferior. Como não se esquecer do Toró sendo expulso por agredir um gândula, em Montevidéu? E a derrota por 3 a 0 para o Defensor, do Uruguai? E a soberba na trágica eliminação para o América? E os 3 gols que oferecemos ao Olimpia no Engenhão, com um elenco liderado por Ronaldinho Gaúcho? Tudo fazia sentido: se nosso objetivo era o título, em primeiro lugar precisaríamos estar habituados à competição.

Contudo, o que mais impressiona é que a máxima dita naquela fase de afirmação do Flamengo ainda é válida. Além de 2014, também participamos das edições de 2017, 2018 e 2019, além das Sul-Americanas de 2016 e 2017. Aos poucos, fomos nos tornando figura certa, mas a tal experiência não chegou. Continuamos cometendo os mesmos erros lá de 2007, como se tudo fosse novidade. Ainda sofremos bobas expulsões, ainda não sabemos cozinhar um resultado, ainda não sabemos lidar com o ambiente agressivo principalmente fora de nossos domínios. Reduzimos todo nosso investimento e nosso nome a uma simples condição de coadjuvante em uma competição na qual racionalmente não deveríamos sair antes das semis. E ainda lutamos pra passar da fase de grupos – quando passamos.

Em 2019, quem leva a culpa consigo é o Abel, mas nos esquecemos que também houve culpados em 2018, em 2017, em 2014… e continuamos nessa roleta russa cujos alvos estão sempre em uma berlinda, muito provável de expulsá-los do clube  logo após a consumação do ato. E eles realmente saem, não permanecem para o próximo fracasso. Cá entre nós, até quando vamos nos cegar diante deste problema sistêmico? Culpa maior tem quem permite a contratação de jogadores de baixo calibre e até a chegada de treinadores com projetos distintos do Flamengo vencedor.

O que falta para o Flamengo é um projeto vencedor, e não somente onze jogadores perfeitos em suas posições. Não precisamos de um treinador infalível, mas de um que consiga tocar um projeto de Flamengo que respeite a nossa história e nosso futebol e que não seja demitido na primeira sequência de jogos ruins. Não tem que ser o treinador amigo do dirigente A ou B, mas fiel à instituição e aos patrimônios do Flamengo. Com ele virão um padrão de jogo, um padrão de comportamento e um futebol essencialmente rubro-negro. Esse futebol do qual falo não sucumbe a catimba de argentino em Libertadores, pois não se permite recuar perante a imponência de nenhum adversário. É de raça, mas também de muita bola no pé. É de aplicação defensiva, mas essencialmente de ataque marcante.

É neste Flamengo que eu penso antes de todos os jogos, mesmo que tudo me mostre o contrário. É assim que vou encarar a partida de hoje, até o final. Mas e o amanhã, a quem pertence?

SRN!

Rodrigo Coli

twitter: @_rodrigocoli

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