IMAGEM: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM
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Mister, hoje, você é o português mais importante da minha vida. Em minha galeria de importância, habitam portugueses como Camões, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e meu bisavô, Mamede de Souza; homem que veio de Portugal ganhar a vida no Brasil e virar nome de rua. Responsável por correr em minhas veias Rubro-Negras, o sangue lusitano.
Não sei os motivos que fizeram o meu bisavô vir pra cá. Me perguntei se ele veio fugir do regime fascista de Salazar, também conhecido como Estado Novo, que durou longos 41 anos, de 1933 a 1974, e lembrei que você passou a sua infância sob essa ditadura. Fui rememorando mais ao ver o seu vídeo de despedida e a música usada, não era a mais adequada ao momento para nós Rubro-Negros. Cabia ali, a música “Tanto mar“, de Chico Buarque, uma ode a “Revolução dos Cravos“.
Explicando: A “Revolução dos Cravos” ou “Revolução de 25 de Abril“, foi um movimento político e social, ocorrido em 25 de abril de 74, que derrubou o regime ditatorial salazarista. Em 75, Chico Buarque compôs a canção que homenagearia o evento. A primeira versão, cantada no tempo presente, teve sua letra censurada. Cabe lembrar que vivíamos a ditadura no Brasil. Em seu disco com Maria Bethânia, gravado ao vivo no mesmo ano, no Canecão, a canção foi inserida na versão instrumental. O inicio da sua letra original diz assim: “Sei que estás em festa, pá/ Fico contente/ E enquanto estou ausente/ Guarda um cravo para mim“. A letra original nunca teve um registro em disco.
Em 1978, algumas músicas censuradas do compositor foram liberadas e entre elas, “Tanto mar“. Chico, como ele mesmo explica, não via sentido em manter a letra inicial e fez uma nova versão: – Como é uma música bastante circunstancial, se referindo mesmo a revolução portuguesa de 74, já mudou de caminho. Eu resolvi mudar a sua letra. Não é mais como era. A letra se refere a Portugal no tempo passado, projetando também pro futuro –, explicou na ocasião. A música foi inserida no disco homônimo no mesmo ano, mas que todo apaixonado pela obra do artista, se refere como o “disco da samambaia” por causa de sua capa. O álbum traz a também cesurada e depois liberada, “Cálice“. Aproveitando a deixa do poeta cancioneiro, vou usar a letra dessa versão para projetar pro futuro, o sentimento causado pela sua partida, mas também sem deixar de olha o passado recente e o presente pela sua partida, Mister.
“Foi bonita a festa, pá/ Fiquei contente/ E inda guardo, renitente/ Um velho cravo para mim”: Mister, a festa foi bonita! Os jogos, os títulos, a alegria, a passagem histórica. Obstinado, irei guardar esses momentos, o que poderia caracterizar aqui como o “velho cravo“, esse que vou levar como um dos maiores times da história do Flamengo. Como foi bonita a festa!
“Já murcharam tua festa, pá/ Mas certamente/ Esqueceram uma semente/ Nalgum canto do jardim”: Há de concordar comigo Mister, que sua passagem foi curta. Sei que aqui no Brasil, os técnicos não duram muito no cargo. No Flamengo, a média é um pouco menos de seis meses e você ficou um pouco mais que o dobro. Então, essa “tua festa”, uma referência a sua intensa passagem, murchou com sua partida. Assim como o legado do seu trabalho, espero que tenham deixado uma semente num jardim qualquer do Ninho do Urubu.
“Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é preciso, pá/ Navegar, navegar”: Agora, Mister, há muitas léguas a nos separar. Um oceano inteiro de distância, mas sei, mesmo que sem entender, que é preciso navegar, seguir a vida, continuar a trilhar o caminho que escolhemos, mas essa é parte mais triste dessa história. Sim, eu sei quanto é preciso navegar e talvez, você precise disso agora.
“Canta a primavera, pá/ Cá estou carente/ Manda novamente/ Algum cheirinho de alecrim”: Como diz a canção, é o anúncio de uma nova primavera. Mas “cá estou carente“. Eu e 45 milhões de apaixonados pelo Flamengo. Ficamos órfãos do “paizão do Gabigol“, órfãos daquela energia infindável à beira do gramado, essa energia que com a magnética, formava uma corrente única entre campo e arquibancada. Inesquecível, Mister! E aqui, humildemente, como clama os últimos dois versos desta sublime canção, sem pedir não a própria flor, “manda novamente algum cheirinho de alecrim”, essa especiária tão preciosa quanto os momentos de glórias que vivemos em 2019 e no início deste ano. Nada disso seria possível a sua chegada! Por isso, e a tudo isso, Mister, amo você! Obrigado por tudo! Naveguemos!
Aqui, a minha versão do vídeo de despedida de Jorge Jesus:
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