Faz muito frio aqui em São Paulo. Neste domingo, o acalorado coração rubro-negro não foi suficiente para aquecer o corpo, precisava de algo mais. Poderia ser sangue, tive de recorrer ao cobertor. Assim assisti à derrota do Mengo em Florianópolis: enrolado em uma fonte de calor.
Senti-me reflexo fiel do time, mais frio do que qualquer outra coisa. Perdemos, jogamos melhor, e só. Faltaram chances de parar a respiração, lances inacreditáveis, para o bem ou para o mal. Faltou o grito, de gol ou de raiva. Faltou perder a razão.
É esse o retrato do atual Flamengo: estamos, acima de tudo, racionais. Ainda há o rubro-negrismo do coração, que não se rende e tenta convencer todo o resto de fatores que nos mantêm vivos de que 2016 pode sim ser nosso ano. Mas ele joga sozinho nessa frente. Cada vez mais, somos convencidos pela razão, e as verdades com que nos deparamos são assaz desanimadoras.
A única novidade trazida contra o Figueirense foi Rafael Vaz. Estreia competente. Teve duas chances de marcar o gol do desafogo, sua especialidade no ex-clube. Sem sucesso. Saiu para dar combate, no gol dos caras. Interpreto mais como falha do sistema defensivo do que individual do zagueiro. Aliás, mérito deles também. Bom passe, bela conclusão.
Do mais, a cruel realidade dos últimos tempos. Precisamos de um técnico efetivo, alguém que assuma de verdade a responsabilidade sobre o time, suporte as cobranças e não seja impedido de falar nos dias de semana. Talvez possa ser o Zé Ricardo mesmo. Em 4 jogos, não se mostrou acima da média, nem pior do que os comandantes disponíveis no mercado e/ou especulados na Gávea. Como Jayme e Muricy, insiste em um erro grave: não escala o meio de campo com Cuéllar, Arão, Mancuello e Alan Patrick. Do jeito que a coisa tá, pode ser Júlio César Leal ou até mesmo o Senhor Waldemar. O primeiro que aparecer prometendo formar o time com esses 4 no meio já ganhará minha simpatia e possível torcida pela contratação.
O “meio-campo ideal” é a ponta que sobra da emoção na razão. É o que resta da esperança de vermos o atual time do Flamengo vencedor. Sem ele, serão mais domingos frios, contrapondo o sábado de 40 graus que o rubro-negro viveu neste final de semana.
O meu foi no trabalho e lá tem ar condicionado. Não precisei de cobertor, nem precisaria. Na Arena Carioca 2 havia um time destilando o melhor calor do mundo por todo o Brasil. Sabemos que as glórias no basquete nunca se sobreporão às do futebol, mas aqueles caras são realmente o orgulho da Nação.
100×66 no placar, pentacampeonato do NBB – tetra consecutivo – e Olivinha coroado “MVP”, o melhor jogador das finais. Como de costume, o ala-pivô caiu no choro. Não só por ter sido campeão e conquistado o troféu de melhor atleta, mas por ter feito isso vestindo o Manto Sagrado.
Revelado na base do nosso basquetebol, Olivinha é que nem nós. Vibra com as vitórias, pena com as derrotas e fará o que for possível para ver o Flamengo sempre no topo. Olivinha é emoção. Cada cesta dele vale por umas 3. A maneira com que comemora empurra o time, a torcida. Enche de calor o coração de qualquer coisa que for Flamengo na Via Láctea.
Olivinha é o MVP não só por desempenhar um bom basquete. Seu jogo é fruto de sua alma. Indiscutivelmente forte, acima de tudo rubro-negra.
Falta isso ao futebol, alguém com capacidade de se tornar ídolo. Que um dia possa ser MVP não apenas pela maneira de praticar o esporte, mas por entender o que é ser Flamengo.
No último dia 26, data da confirmação da saída de Muricy Ramalho, Eduardo Bandeira de Mello fez um anúncio: Disse que deixaria a entrevista coletiva, a qualquer momento, para acompanhar in loco o jogo 2 das finais do NBB, realçando a importância dos “outros esportes” rubro-negros. No sábado, agora, ele não estava no ginásio, sequer no páis. Acompanhava, nos EUA, os preparativos da CBF para a vexatória eliminação da Copa América, sem ter qualquer cargo na delegação brasileira. Aprenda com o Olivinha, presidente!
