A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
Ninguém precisa vir até aqui, nesse blog obscuro e escassamente frequentado, para saber que vivemos tempos terríveis. O ar está contaminado, arrebentamos com a camada de ozônio, soterramos nossos rios com lama, despejamos toneladas de cocô no mar, matamos gente de guerra, de crime ou de fome, consumimos cada vez mais, lemos cada vez menos, não podemos mais beber, fumar e trepar de forma saudável, estamos desaprendendo a conversar, somos protegidos por policiais bandidos e governados por ladrões e vigaristas da pior espécie. Só não estamos irremediavelmente fodidos porque existe o Flamengo.
Ainda que a evangelização não seja o core business do Flamengo a sua épica trajetória tabela acima no Campeonato Brasileiro tem colocado mais homens de bem no caminho da retidão do que batalhões de padres, pastores e rabinos seriam capazes em apenas 5 meses. Lembram do Flamengo das primeiras rodadas do Brasileiro? Sei que é difícil e, para muitos, até desagradável, mas façam um esforço. Agora olhem o Flamengo hoje, lá no alto da tabela, tirando o sono dos muquiranas da arcoirizada e enchendo a imprensa paulista de ódio inconfesso. O Flamengo é uma parábola em chuteiras.
Desacreditado, cobrado furiosamente e jogando mal, o Flamengo penou. Teve crise, teve briga, teve expurgo e desistência. Mas o Flamengo continuou, mourejando, sujando muita roupa de treino e arrancando tufos de grama por qualquer estádio que passasse pra ganhar por um a zerinhos lastimáveis. À sua maneira peculiar o Flamengo foi ensinado ao homem bem vestido, que andava mei putinho, o valor da paciência. Onde antes havia desespero o Flamengo levou esperança. Claro que nada disso seria possível se não houvesse dinheiro pra bancar toda essa bondade.
Ao Flamengo, assim como a todos os outros clubes, foram oferecidas duas opções: continuar pobre e folgazão ou ser rico, decente e cumpridor de suas obrigações. Ora, se o Flamengo fez a escolha mais acertada é ponto para nós. Uma discreta reverência para Mamon. Ao mesmo tempo o Flamengo mostra ao vagabundo que vive em cada um de nós o valor do trabalho duro e de pagar as suas paradas em dia. Onde existia dúvida agora só existe a fé. A fé de que a maior das malandragens é fazer tudo certinho, na lei. Se a Rádio Patrulha chegasse agora seria uma grande vitória, você não poderia correr.
O Flamengo ensinou também à orgulhosa torcida carioca que o Flamengo pode sobreviver mesmo sem a suas inestimáveis presença e supervisão. E de passagem aproveitou pra jogar por terra as três teorias que ainda cindem a Nação: a teoria localista que prega que o Flamengo só pode jogar no Rio, a teoria patrimonialista que prega a necessidade de estádio próprio e, por fim, a teoria luxemburguista que prega que a cartolada do Flamengo é incapaz de fazer um O com o auxílio de um copo quando o assunto é futebol.
Ninguém deve se sentir constrangido se ainda não conseguiu mudar de ideia, mesmo à luz dos fatos. Mas hoje, sob o sol que jamais se põe da Pax Flamenga, é fácil perceber que onde havia discórdia o Flamengo levou união. E até para os incréus e vascaínos tem sido impossível não admitir que o Flamengo tem sido, essencialmente, um instrumento de paz.
Mas num mundo como esse em que vivemos, quem é capaz de se sentir seguro? Quem pode garantir onde estaremos daqui a 16 rodadas? A fortuna é vária e sem sorte não se consegue nem chupar um chicabom. Triunfaremos ao fim da jornada? Difícil prever, porque é impossível ter algum controle sobre acontecimentos futuros. O que podemos controlar é a ansiedade, a desesperança e a falta de roupa no tanque. Ser campeão brasileiro é façanha reservada a apenas um entre os vinte times que o disputam. Mas sair do campeonato mil vezes maior do que o Flamengo entrou, ah, disso só nós seremos capazes.
Sai do chão, sai do chão!
A Torcida do Mengão
Mengão Sempre
Arthur Muhlenberg
Fonte: República Paz & Amor

Os inconfundíveis textos do Arthur! Muito bom…
Esse cara é um gênio da literatura flamenga. SRN
Show Arthurzão!!!! Simplesmente show!!! SRN
ARTHUR M., texto espetacular a começar pela belíssima foto da Claudia Cardinale!
É muito bom ler o que escreves com essa verve literária Rubronegra apaixonante!!
Parabéns mais uma vez
Aquele abraço
Nem preciso ler o rodapé para saber quem é o autor. Linguagem incomparável!
Não vou falar que este Arthur é craque, porque craque com este nome só existe UM, mas bate um bolão nos teclados. kkkkk
SRN