Em entrevista ao GLOBO, integrantes da cúpula da diretoria rubro-negra mostram convicção sobre priorizar a quitação de dívidas, mesmo com impacto no futebol, defendem os jogos em Brasília e dão explicações sobre o alto preço dos ingressos.
Ao planejar 2014, vocês temem estar na Série B?
Wallim: De jeito nenhum. Não passa pela cabeça.
O plano inicial era ser mais forte no Brasileiro, não?
Wallim: O elenco não é uma seleção, mas pode estar entre os dez. A situação financeira melhorou, mas ao assumirmos não sabíamos que devíamos R$ 750 milhões, que tinha Timemania vencida… Mas o time foi reforçado. Tem Elias, Mano Menezes, André Santos, Chicão, Marcelo Moreno, Gabriel e Carlos Eduardo, que ainda não performou, mas que, quando trouxemos, tinha vários times disputando a tapa. A gente acredita nele.
Vários deles são emprestados. Se o clube não puder comprá-los, o time terá que ser refeito em 2014?
Wallim: Esse risco sempre há. Vamos trabalhar para manter quem rendeu bem. Para o Elias, vamos montar uma operação eventualmente com a torcida.
Por que uma tradição foi rompida e o banco de reservas passou para o lado direito do Maracanã? Foi para pressionar bandeirinha?
EBM: Sou contra. Um monte de gente reclamou. Talvez Mano não soubesse da tradição.
Wallim: Pode ser revisto. Mas se o Mano quiser ficar do lado direito…
Para ter a Certidão Negativa de Débito(CND), gastou-se R$ 40 milhões e se gasta R$ 7 milhões mensais. Isto engessou o futebol…
Tostes: O Flamengo precisava renegociar a dívida para se livrar de penhoras, da imprevisibilidade. A CND representou legitimidade no nosso trabalho, trouxe redução de juros, liberou penhoras. O patrocínio da Caixa não cobre o gasto com a CND. Mas eu seria executado numa penhora de R$ 130 milhões. O Flamengo ia quebrar. Eu posso te garantir, em seis meses o Flamengo estaria falido. Qualquer dinheiro que entrasse seria penhorado. Só para sentar e conversar com a Procuradoria da Fazenda Nacional, tínhamos que pagar R$ 40 milhões. E isto nos dava o benefício da CND.
Wallim: Ninho do Urubu, todos os ativos iriam à penhora.
E já houve impacto?
Tostes: Da dívida de R$ 750 milhões, a auditoria mostrava que deveriam ser provisionados R$ 730 milhões. Hoje, este número é R$ 654 milhões. Já matamos quase R$ 80 milhões.
EBM: E há argumentos éticos e morais para pagar impostos. Temos 40 milhões de torcedores. Devemos dar exemplo.
O Flamengo tem identidade popular. Não temem perdê-la com ingressos caros?
Bap: Não vai perder. O que leva o torcedor a se envolver com o clube é a vontade de vê-lo ganhar. Para ser grande, o Flamengo precisa arrecadar. Com o tempo, com o clube melhorando, teremos time melhor, ingressos mais baratos. No Rio, de cada quatro pessoas, uma entra de graça, duas pagam meia, sendo uma sem direito. É perverso. Contra o Botafogo, ficamos com R$ 1,08 milhão e o Consórcio com R$ 1,2 milhão. Em Brasília, de cada R$ 2, ficamos com R$ 1. E o valor médio do ingresso é R$ 65 em Brasília e R$ 59 no Rio. Em Brasília sobra mais para o Flamengo, é onde o clube ganha mais dinheiro.
Ao pôr 53 mil pessoas em Brasília, contra o Coritiba, o Fla levou R$ 1,6 milhão. Com 38 mil no Maracanã, contra o Botafogo, ficou com R$ 1,25 milhão. Não é pouca diferença para mudar o clube de lugar?
Bap: Para a situação atual do Flamengo, desculpe: faz muita diferença. Sou carioca, acho que o Flamengo deve jogar no Maracanã. Mas temos obrigação de fazer o Flamengo grande. O valor que os profissionais ganham terá que ser arrecadado. A precificação é mais complexa do que o romantismo. A atratividade do jogo é mais relevante que o valor do ingresso para trazer público.
Ao resolver problemas imediatos, não se estará descaracterizando o clube popular, o clube do Maracanã?
Bap: Em absoluto. Então, o Barcelona deveria ser só amado em Barcelona.
Mas ele não se mudou de Barcelona para isso…
Bap: No longo prazo, vamos duplicar a torcida. Vamos construir um Flamengo muito mais forte. O Flamengo é líder de torcida em 23 estados.
Se for preciso, o Flamengo continuará itinerante?
Bap: Jogar em lugares diferentes tem uma limitação física, logística. Este é um ano de exceção.
Não há compromisso com a identidade, com um extrato da sociedade que sempre foi a cara do clube? Não deveria haver uma cota para eles?
Bap: O Flamengo é grande em todas as camadas sociais. A TV cumpre um papel complementar, leva a todas estas pessoas o Flamengo. O estádio não tem lugar para 40 milhões. Quando você fala de cotas eu me arrepio. De cada quatro pessoas no Maracanã, três entram de graça ou pagam meia. Não sei que cota mais podemos colocar. O compromisso maior é com a vitória. É o que o torcedor quer. Se o Flamengo fosse um saco de pancadas jogando a R$ 1 no Maracanã, o ingresso seria popular e ninguém iria ver. Se for grande e ganhador, vai atingir corações e almas da torcida.
Mesmo que se chegue no Maracanã e não se reconheça o Flamengo, o público tradicional do Flamengo?
Bap: Isso não vai acontecer.
Tostes: O estádio mudou. O consórcio tem custos maiores do que no passado. Isto tem que ser passado para algum lugar. E não foi opção do Flamengo.
Uma cota de 5 mil ingressos populares destrói o projeto financeiro do clube?
Bap: O Flamengo vai viver dos pobres, jogar um futebol pobre e ser um time pobre, porque o negócio futebol mudou. Atlético-MG x Olimpia deu R$ 14 milhões. Você acha que a torcida do Atlético-MG é só classe A?
Então para o assalariado, mais pobre, que não falsifica carteira de estudante, é ponto final do estádio?
Bap: Pode virar sócio-torcedor e pagar R$ 25.
Só se ele tiver carteira de estudante e pagar mais R$ 39,90 por mês.
Bap: Mas eu não pago Mano Menezes, Marcelo Moreno ou Messi com gratuidade. Isso sai da arrecadação do Flamengo. A questão é: o clube pode vender ingresso mais barato? O Consórcio vai dar alguma coisa de graça? Vai dar cota de ingresso barato?
Isso não impedirá a criação de torcedores nas classes baixas? Neymar e Messi jogam de graça na TV…
Bap: No estádio só cabem 50 ou 60 mil, não 40 milhões. A garotada torce para o time que é grande, vencedor. Se o Bonsucesso jogasse de graça no Maracanã, o menino pobre não iria querer ver. A fase que o Flamengo mais cresceu, em todas as classes, foi na geração do Zico. Porque era vencedor.
Wallim: Antigamente não tinha custo de estádio, jogadores ganhavam menos. Hoje tudo está em outro patamar. Em determinado jogo, de menor apelo, pode abrir atrás do gol para R$ 10.
O Corinthians tem setor de ingressos mais baratos.
Wallim: São Paulo tem gratuidade? Gratuidade e meia entrada nos impedem de subsidiar ingresso popular.
Tostes: E joga num estádio público. Quanto paga para jogar no Pacaembu?
EBM: Se um patrocinador bancar a arquibancada popular e distribuir este ingresso, num jogo de grande apelo, quem vai chegar lá de madrugada para comprar? Vai ser o assalariado ou o cambista? Aquele pessoal sem camisa, que aparecia no Maracanã, hoje não tem dinheiro nem para pegar o ônibus.
Bap: Quando o sócio-torcedor crescer e der previsibilidade de receita, o preço do ingresso ficará menos relevante. Nosso projeto não é elitista. Começa com preços mais caros, mas nada obriga que fiquem altos sempre.
Como será decidido o preço do jogo com o Cruzeiro, pela Copa do Brasil?
Bap: Primeiro, temos que fechar se vamos conseguir jogar mesmo no Maracanã. Se pudermos, será de acordo com a situação do time, a atratividade do jogo: se o Flamengo ganhar em Minas, se perder…
Fonte: O Globo

