A festa na arquibancada foi digna dos velhos tempos de Maracanã. Mas o borderô da partida entre Flamengo e Cruzeiro serviu para azedar de vez a relação entre Consórcio Maracanã S.A. e os rubro-negros. Se o clima já estava pesado antes do jogo, com inúmeros desgastes, os números apresentados com o resultado financeiro irritaram os dirigentes rubro-negros e deixaram uma certeza: não há mesmo possibilidade de assinar um acordo a longo prazo diante dos custos apresentados pelo Consórcio. Agora, o Flamengo torce por um empurrão do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Além de tentar uma audiência, os dirigentes já fizeram chegar ao ouvido do governador Sérgio Cabral Filho que, caso a concessão seja cancelada nos próximos dias, o Flamengo irá mandar todos os jogos do segundo turno do Campeonato Brasileiro e os restantes da Copa do Brasil no Maracanã. A expectativa sobre a decisão do Governo, que recebeu nesta semana uma proposta de novo plano de viabilidade para continuar com o Consórcio, já paira sobre a Gávea. Na calculadora, os dirigentes do Flamengo encontraram a justificativa para tamanha irritação.
Ainda na terça-feira, às 13h , quando as vendas de ingressos atingiram a marca de 33.204 mil pagantes, a diretoria se pôs a fazer contas. A renda, naquele momento, chegaria a R$ 1.337.735,00. De acordo com os termos de acordo de divisão igual de despesas e lucro entre clube e Consórcio, os rubro-negros teriam direito a R$ 345.570,65, ou 25,83% do total. Se os moldes de custos do estádio carioca fossem os mesmo do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, o lucro do Flamengo chegaria a R$ 659.714,04, ou 49,31%. A partir deste número de ingressos vendidos, o Flamengo projetava ganhar 42,88% da renda no Rio. Mas não foi o que aconteceu.
Mesmo com os 47.103 pagantes, o Flamengo abocanhou apenas R$ 624.429,68 de uma renda bruta de R$ 2.266.070,00. Em miúdos, cerca de 27,5%. A parte que coube ao Consórcio, classificada como aluguel do estádio no borderô, alcançou R$ 734.623,15. Apenas de despesas, com custo operacional, o valor chegou a R$ 380 mil. Números que assustam e deixam o Flamengo ainda mais longe de voltar definitivamente à sua casa. Nesta quinta-feira, mais uma vez as partes voltaram a se falar, mas o acordo parece longe. O Consórcio mantém postura firme em relação aos gastos e garante que não exagera nos cálculos. Autor de três gols nos três jogos do time no novo Maracanã, Elias comparou a energia do estádio com o Mané Garrincha, em Brasília. E torce pela permanência no Rio.
“A gente tem o apoio em Brasília, mas não é aquele torcedor acostumado a ver o Flamengo, que fez o Flamengo ganhar títulos. Ele gosta do Flamengo, mas não sabe empurrar na hora acerta. O Flamengo tem essa identificação no Maracanã”, disse Elias.
Mas irritação do Flamengo encontra base também em algumas posturas do Consórcio, não apenas nos números. O tratamento dado ao programa de sócio-torcedor, um dos xodós da atual gestão, é um dos exemplos. Inicialmente, não fora permitida a venda de ingressos para integrantes do programa no dia da partida. Neste ponto, o Consórcio recuou. Mas o cartão-ingresso, por enquanto, não foi utilizado. Após a pressão do clube, a promessa é de que ele entre em vigor, efetivamente, na partida contra o Vitória, que será disputada no estádio.
Outro ponto de discórdia se refere quanto a ativação de patrocínio. Diante do Cruzeiro, o Consórcio permitiu apenas que um comercial do sócio-torcedor fosse veiculado nos telões do estádio. Mas ações de empresas como Caixa Econômica Federal, Adidas ou Peugeot continuam proibidas, a não ser que haja um acordo financeiro baseados nos termos do mercado. Por isso, a torcida na Gávea pela anulação da concessão é grande. E o clube busca saídas.
A ideia rubro-negra é de que o Maracanã conte com um administrador para manutenção. Em contrapartida, os clubes receberiam as chaves do estádio e se responsabilizariam por toda operação em dias de jogos, comprometendo-se a devolver o Maracanã da mesma maneira como foi recebido. A postura da diretoria contra o Consórcio ganhou coro nas ruas. Além de uma petição na internet que já conta com quase 2.500 assinaturas, faixas e panfletos contra a Odebrecht, empreiteira que tem participação de 90% no Consórcio, surgiram na arquibancada do estádio na partida contra o Cruzeiro. Mas acabaram coibidas. E o imbróglio segue longe do fim.
Fonte: ESPN

