Ah, o Flamengo, esse velho conhecido. Quando o time começa a esboçar alguma objetividade, a mostrar algum poder de fogo na briga pelo Hepta, tudo conspira ao seu favor e um poderoso sopro de otimismo enfuna as velas da galera na direção da Baía de Tokio. Até que alguém pisa no ovo e toda a louça vai ao chão. Quantas e quantas vezes já vimos esse filme? Domingo vimos outra vez. Num fim de semana infernal, em que até Messi peidou, o Flamengo peidou também.
E logo pro Flor, fugitivo contumaz da Série B e nosso freguês histórico. Já foi time grande, é verdade, no tempo em que Dondon jogava no sub-17 do Andaraí, mas de lá pra cá é apenas um clube em decadência, dedicado primordialmente à prática do tênis e dos saltos ornamentais. A indigência técnica da atual equipe tricolor ficou cabalmente demonstrada no jogo de ontem. Diante do opressivo domínio exercido pelo Flamengo os fugitivos tricolores se apagaram de tal forma na partida que o Flamengo teve que fazer até os gols pra eles. Me perdoem o clichê, o Flamengo ontem perdeu pra si mesmo.
O Flamengo dominou as ações durante boa parte do tempo e esse domínio foi o um dos principais fatores para a derrota. Não por sua esterilidade, mas porque engendrou a peste das tradições do Fla-Flu. Que até as crianças de colo que brincam na caixa de areia da Gávea sabem que jamais é decidido no mero plano futebolístico. E sabem também que o Fla-Flu ocupa a posição de honra no Quem é Quem dos Clássicos Mundiais porque seus protagonistas são, a despeito da diferença de tamanho, especialistas na reversão de expectativas.
Ora, se um Flamengo que vem se arrumando, galgando parâmetros de jogo pra jogo, encara um Fluminense ladeira abaixo, em plena liquidação de elenco e com a conta do gás atrasada, o natural é que o Flamengo doutrine, humilhe e pulverize com as vãs esperanças tricolores de permanecerem homiziados em 2017 na elite a qual não mais pertencem legalmente. A estatística confirma essa tendência.
Mas o Fla-Flu, divina invenção do capeta, não é regido pela lei dos fenômenos naturais e nem respeita a estatística. Pelo contrário, é o sobrenatural que sempre acaba se impondo no famigerado clássico interdivisional e reduzindo as ilusões dos idiotas da objetividade a pó. Mais uma vez, honrando a tradição da reversão de expectativas, o Fla-Flu foi vencido pelo pior.
Nada mais confortável do que fazer previsões a posteriori, mas quem assistia ao jogo percebia que estava muito na cara. O Fluminense encolhidinho, que não vai lá na frente nunca, é o Fluminense mais perigoso que existe. É nessas pedras pequeninas que o gigante Flamengo gosta de tropeçar. O absoluto domínio do Flamengo durante o 1º tempo prenunciava que se bola não entrasse logo teríamos problemas na etapa complementar.
A bola não entrou e o Flamengo aproveitou o 2º Tempo para mostrar o que sabe fazer de pior. Como, por exemplo, as substituições. Zé Ricardo caprichou colocando Sheik e Fernandinho. Foi só problema. Como num passe de mágica se desmontou completamente o que vinha funcionando tão bem. Nem Abel no tempo em que treinava o Fluminense seria capaz de dar tamanha ajuda ao povo de Laranjópolis. Que aproveitou o mole pra nos bater a carteira descaradamente.
Em favor de Zé Ricardo, que acertou ao insistir com Cirino, que volta aos poucos a mostrar algum futebol, é preciso dizer que técnico nenhum do mundo evitaria o gol contra de Arão e a assistência de Rafael Vaz. Essas falhas individuais não podem ser usadas nem contra os próprios jogadores, que vem se apresentando bem, muito menos contra o Zé Ricardo. Quer cornetar o cara, beleza, mas que seja pelos motivos justos.
Não foi o primeiro Fla-Flu vencido pelo lado errado na cagada, já aconteceu antes, várias vezes. Mas é muito preocupante a incapacidade do Flamengo em acertar o gol. Mesmo com a posse da bola absurda chutamos pouco a gol e chutamos que nem moça. Alguém precisa ver isso aí. Saldo de gols é um quesito que pode nos derrubar na hora de separar os times brasileiros dos paraguaios.
Tempo para treinar não teremos, na quarta-feira já estaremos semeando o rubro-negrismo em solo capixaba e, muito provavelmente, dando mais uma pisa no Inter. Então o exercício precisa ser mental, pra reforçar a confiança. É fundamental manter esse posicionamento elegante na tabela. A uma distância segura das montarias paraguaias na liderança, sem contudo se deixar contaminar pelos gases do oba-oba que provocam debilitante euforia nos ocupantes provisórios do G4. Ambiente que, como já foi dito, não é de bom tom frequentar antes da 20ª rodada.
Quando o Flamengo perde no domingo é que percebemos que as segundas-feiras são completamente desnecessárias. Bola pra frente, ser Flamengo é padecer no paraíso. Nossa segunda vai ser uma droga, mas pelo menos já está paga.
Mengão Sempre
Arthur Muhlenberg
Fonte: República Paz & Amor

Quando o post tem uma imagem retrô do tipo nada-a-ver-com-o-assunto, eu entro porque já sei que vou me divertir com as excelentes postagens desse cara.