Os romanos tinham deuses pra tudo. Um deles era Janus, o senhor dos portais, das mudanças e transições, inventor das guirlandas, dos botes e dos navios. Janus era o protetor e regente do Lácio, onde foi responsável pela introdução do ouro, do dinheiro e da agricultura na região da península italiana onde se originou nossa língua inculta e bela, dita sua última flor.
Janus era representado sempre como um homem com duas faces, uma olhando para a frente e outra para trás. Talvez pareça meio fresco, mas não é pedantismo dizer que no presente momento o torcedor do Flamengo tem uma parecença com o velho Janus. Olha esperançoso para o futuro, mas não deixa de encarar o passado e buscar similitudes entre a campanha de 2016 e a mítica temporada de 2009 onde tudo deu certo.
Não é exercício dos mais fáceis, mas enquanto fantasiamos o futuro ou desembrulhamos do papel de seda as mais preciosas lembranças do Hexa não precisamos olhar para o presente. Porque por maior que seja nosso amor atualmente não tem muita coisa bonita pra ver no time do Flamengo. Após meses e meses de treinos, jogos, viagens e desclassificações o Flamengo ainda é um time que apresenta uma concepção tática que podemos classificar como, com muito boa vontade, rudimentar e sem qualquer brilho individual ou coletivo.
Ainda assim o Flamengo superou o Cruzeiro em pleno Mineirão, acabando com a mini-escrota, digo, mini-escrita que já durava mais de 15 anos. Menos um tabu, até que enfim! O Mengão ganhou do Cruzeiro e se manteve no pelotão de 13 pontos, a apenas 3 pontos do líder, na 7ª posição. Exatamente o mesmo lugar que ocupávamos ao fim da 8ª rodada do Brasileiro 2009. Estamos em pleno Rumo ao Hepta, só não vê quem não quer.
Brasileiro, como é sabido, não é 100 metros rasos, é maratona e o negócio é não deixar os paraguaios se distanciarem muito. Daqui a pouco eles param pra beber água e aí, é nóis chegando no sapato, naquele estilo Homem Que Vem de Trás que já nos consagrou inúmeras vezes ao longo da história mundial. Vamos observar, ainda falta muito jogo.
O destaque da vitória do Mais Querido vai pra zaga, claro. Rever estreou fazendo dupla com Vaz na 7º formação defensiva do ano e aproveitou pra fazer um gol no Fábio em uma das suas subidas ao ataque. Aliás, foi incrível a adaptação de Rever ao grupo. Em menos de uma semana todos os jogadores do Flamengo já sabiam dizer seu nome de trás pra frente. O gol foi importante, viva ele, mas o mais importante foi não tomar gol. Apesar do Cruzeiro ser ruim de doer até os cornetas incondicionais foram obrigados a admitir que a defesa em especial e o time do Flamengo em geral, pareceram bem mais arrumados do que nas últimas apresentações.
Notem que parecer bem mais arrumado do que estava não significa arrumado, quem já mandou um filho adolescente dar uma geral no quarto sabe exatamente do que estou falando. O time continua cheio de defeitos graves, entre os quais o pior, disparado, é a falta de ofensividade. Chutamos pouco e chutamos mal. Todo mundo é amigo, mas a bola que não chegava pro Guerrero também não chega pro Vizeu. Tem muita coisa pra ser trabalhada e corrigida nesse time.
O que nos leva ao problema mais candente, a indefinição sobre o comando técnico. Tem quem queira que Zé Ricardo seja efetivado logo de uma vez, seguindo os passos trabalhistas de Andrade no Brasileiro de 2009 (após quebrar o tabu da Vila Belmiro). E tem quem exija, com grande estardalhaço, que o Flamengo contrate um treinador de ponta, seja lá o que isso signifique. Eu, que sou família e bebo água da bica, só consigo enxergar diferença entre nosso atual interino e os treinadores de ponta na hora de passar no caixa e pegar a bufunfa.
A torcida pode ficar nessa vibe de Janus, olhando pro passado à procura de coincidências e sincronicidades com o ano mágico de 2009 enquanto sonha com um futuro próximo onde existem 7 estrelas de ouro bordadas no Manto Sagrado. Pode porque o que a torcida faz, espera ou sonha é só da sua conta e de mais ninguém. Mas os profissionais do Flamengo, e os amadores da diretoria, não podem entrar nessa de jeito nenhum. Estes tem que olhar o presente sem filtros fofinhos, sem empolgações, pra não repetir os mesmos erros de temporadas passadas. Novos erros tudo bem, faz parte. Mas nada de cair outra vez nesse caôzinho de técnico de grife.
Zé Ricardo é capaz de fazer tudo que Abel, Joel ou Manoel fazem, só que por um preço muito mais em conta. Como ele deixou claramente demonstrado no jogo contra o Cruzeiro ao substituir um atacante por um lateral. Uma substituição empolgante e corajosa, que segue o padrão atual de paumolescência do futebol nacional e que poderia ter sido assinada por qualquer um dos 19 treinadores da Série A. Zé Ricardo tá pronto pro serviço e já tem a roupa toda. Pensem nisso.
Fonte: República Paz & Amor

parei no primeiro paragrafo…
Excelente texto!
Não adianta nada trazer abel e qualquer outro técnico de grife, será um desperdício de tempo e dinheiro.
Por mais que tenhamos ficado sobressaltados com o segundo tempo contra o cruzeiro e a cada substituição feita, não dá para avaliar o trabalho do ZR em 5 jogos. Eu fico muito contrariado com cuellar e mancuello no banco pra caramujo e girino, mas a razão tem que prevalecer sobre a paixão, e precisamos (me insiro, claro) dar crédito a ele, antes que a diretoria amadora cometa mais um desastre no futebol.
O problema é escalar Márcio Araújo limitado Cirino que nem correr sabe mais e everton que é só esforçado.
Tite, Cuca, Dorival Júnior e Levy da safra antiga são os únicos que
ainda fazem diferença. Eu tbm prefiro q invistam em técnicos da nova
safra como Roger, Fernando Diniz e Argel. Abel p mim é gastar dinheiro a
toa porque é igual aos mesmos q estão aí rodando a anos. Eu prefiro q
insistam no Zé Ricardo pois só está a 3 semanas e vemos na prática uma
grande melhora do time taticamente. Muricy ficou 6 meses e só foi
fracasso. Fomos eliminados de competições p times de segunda e até
terceira divisão. Taticamente o time era uma bagunça. Zé Ricardo ( o
professor de educação física) ganhou quase tudo q disputou nas bases,
foi até p a Itália se aperfeiçoar e teve um convite da CBF p a seleção
sub-17 mas preferiu assumir o sub-20 do Flamengo. Parreira e Coutinho
tbm foram só prof. de educação física e se tornaram treinadores
vitoriosos e treinaram a seleção em copas do mundo.
Texto bem interessante. Bacana o ponto de vista sendo exposto da maneira que foi.